Qual é a pegada que uma Bienal deveria deixar?
Talvez uma das perguntas mais importantes que a Bienal nos permita fazer seja justamente esta: como transformar um pico de mobilização em algo permanente?
Nos próximos dias, todos os olhares estarão voltados para a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Durante o evento, milhares de pessoas compram livros, encontram autores, participam de debates e demonstram enorme interesse pela leitura. É uma mobilização impressionante — e que, de certa maneira, expõe também uma das contradições do Brasil.
Nesse curto período, convivem duas imagens do país. De um lado, nossos índices de leitura ainda distantes do patamar desejado, uma rede de bibliotecas insuficiente para cobrir todo o território e as demais dificuldades que conhecemos para transformar o Brasil em um país de leitores. De outro, corredores cheios, encontros disputados, crianças e jovens carregando livros e um interesse genuíno do público pelo maior evento do livro do país.
Talvez uma das perguntas mais importantes que a Bienal nos permita fazer seja justamente esta: como transformar um pico de mobilização em algo permanente?
Aqui, proponho pensar a sustentabilidade da Bienal para além da ótica ambiental. De fato, ao longo das últimas edições, o grande encontro do livro com seus leitores tem avançado estruturalmente em uma agenda verde, incorporando preocupações com energia, resíduos, transporte e emissões como um todo. São avanços importante, necessários e que merecem ser celebrados.
Mas, em um evento dedicado ao livro e à leitura, sustentabilidade também significa formar leitores que continuem lendo, fortalecer bibliotecas, aproximar escolas dos livros e contribuir para uma cadeia editorial diversa, inovadora e economicamente sustentável. É exatamente isso que está presente nas mesas e painéis, na curadoria e na enorme mobilização de editores, livreiros, distribuidores, autores, ilustradores, professores, bibliotecários e mediadores que compõem a cadeia do livro e da leitura.
Em grandes eventos esportivos, fala-se muito de legado. Por que não aplicar a mesma pergunta aos grandes eventos culturais? Cada vez mais, é preciso buscar novas formas de ampliar o alcance dos eventos, deixando marcas na cidade, nas escolas, nas bibliotecas e, principalmente, na formação dos leitores.
Pensar dessa forma nos permite ir além do discurso geral e necessário sobre ESG e tratar a sustentabilidade como capacidade de produzir efeitos que ultrapassem o tempo e o espaço do próprio evento. Uma feira pode durar alguns dias, mas as relações que ela cria, os leitores que mobiliza e as políticas e iniciativas que inspira podem durar muito mais.
Para um futuro próximo, penso que grandes feiras e eventos culturais brasileiros poderiam estabelecer e acompanhar indicadores de legado: novos leitores alcançados, alunos, escolas, professores e mediadores envolvidos, diversidade social e territorial do público e, sobretudo, a continuidade das iniciativas depois do evento. Esses são alguns exemplos do que podemos passar a produzir.
Isso não significa transformar a experiência cultural em uma simples planilha de resultados. Significa reconhecer que um evento da dimensão da Bienal tem uma capacidade extraordinária de mobilização — e perguntar como essa energia pode irradiar para além de seus pavilhões.
Quando as luzes da Bienal se apagam, a sustentabilidade de um grande evento do livro também deveria ser medida pelo que permanece. Uma Bienal verdadeiramente sustentável não é apenas aquela que reduz seu impacto durante alguns dias. É aquela capaz de ampliar seu impacto positivo muito depois que o último visitante vai embora.
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta
