WMF Martins Fontes diz que deixará de fornecer livros à Amazon
Alexandre Martins Fontes anunciou decisão na abertura da Convenção Nacional de Livrarias, em São Paulo, e defendeu limite de 10% para descontos sobre livros
Na abertura da Convenção Nacional de Livrarias, o presidente da ANL, Alexandre Martins Fontes, afirmou que sua editora, a WMF Martins Fontes, não fornecerá mais livros à Amazon. Em sua fala de abertura, o editor ressaltou a importância na mudança editorial da curadoria da Convenção que, neste ano, foi elaborada por livreiros de livrarias de rua.
“Acho muito importante que a gente escute o que as livrarias de rua e de bairro estão nos mostrando”, disse. Com o tema “A livraria como lugar de encontro”, o evento ocupará o Distrito Anhembi (Av. Olavo Fontoura, 1209 — São Paulo/SP) até esta quinta-feira, 3 de setembro. Esta é a primeira vez que a programação da Convenção foi concebida por um grupo de livreiros independentes e de rua.
Martins Fontes também relembrou a história do pai e da abertura da livraria que leva o sobrenome da família em Santos, no litoral de São Paulo, e reconheceu que sua vivência de crescer como livreiro vendendo livro está se tornando cada vez mais rara. Ele usou o exemplo para falar sobre o que define como um estigma no mercado editorial brasileiro: “Em qualquer contexto em que a gente fala sobre vender livros, se fala em aplicar descontos aos livros, e isso é uma doença”, afirmou.

O sócio da editora WMF Martins contou que, há um mês, escreveu uma carta para a companhia informando que sua editora deixará de fornecer livros para a Amazon nos próximos meses. Segundo ele, esse momento representa uma oportunidade para as editoras estabelecerem regras contra a aplicação de descontos agressivos sobre seus livros, prática recorrente em outros grandes players do mercado. “Espero que as livrarias aceitem a imposição das editoras de até no máximo 10% de desconto”, diz o presidente da ANL.
“Aquilo que têm valor, a gente não deprecia. Se a gente entende que o livro, os encontros e as trocas são valorosas, por que a gente dá desconto? Enxergo que precisamos reposicionar, em rede, o valor da livraria e do livro”, comenta Elisa Quadros, da Lucia Livraria, do Espírito Santo. A livreira esteve ao lado de Guilherme Ramos Martinato, da Livraria Arco da Velha, e de Monica Carvalho, da Livraria da Tarde, em uma conversa sobre “Por que as livrarias abrem e por que elas fecham“.
O destaque da mesa foi reforçar a necessidade de uma articulação coletiva das livrarias como, por exemplo, promover o compartilhamento de informações e detalhes logísticos para jovens livreiros, e da promoção de um movimento coletivo em prol de reconhecer as livrarias como pontos de cultura e de encontro. Guilherme, livreiro do Rio Grande do Sul, argumenta que uma aproximação das livrarias de instituições e editais é relevante para fazer com que as livrarias sejam percebidas como alvo de políticas públicas — e também de políticas privadas.
No início da segunda mesa do dia “Em foco — Livraria da Travessa”, Rui Campos, dono da rede, abriu sua fala expondo que cada particularidade das livrarias de rua é justamente o que torna cada uma delas insubstituível. O papo com Rui foi conduzido por Luciana Gil, da Livraria Bibla, e abordou detalhes e curiosidades da administração do dia a dia de livreiro da Livraria da Travessa.
“Uma boa administração não necessariamente passa por um estudo gabaritado, mas sim de intuição. Passa pela pessoa não fazer o óbvio e ir por um lado que não necessariamente era o mais evidente. O livro é um objeto que precisa ser entendido”, defende Campos.
A programação da Convenção Nacional de Livrarias foi estruturada em torno de quatro eixos: mediação cultural, relação das livrarias com cidades e territórios, fortalecimento dos vínculos com os leitores, e experiências nacionais e internacionais voltadas ao desenvolvimento do setor. As inscrições já estão encerradas.
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