Quem lê livros digitais passa a ler mais, diz pesquisa inédita
Segundo o Perfil e Hábito do Leitor Digital Brasileiro, 18 milhões de pessoas declaram ler muito mais do antes desde que começaram a ler livros no formato digital; estudo é realizado pela Nielsen BookData e divulgado pelo Skeelo
BRASÍLIA (DF) — Uma pesquisa inédita realizada pela Nielsen BookData e divulgada pelo Skeelo nesta quarta-feira (2) revelou que a leitura de livros digitais serve como estímulo para mais leitura: quem começa a ler livros no ambiente digital, passa a ler muito mais de maneira geral. Segundo a pesquisa Perfil e Hábito do Leitor Digital Brasileiro, 49% da população de mais de 10 anos teve contato com a leitura digital nos últimos 12 meses — aqui, não apenas de livros digitais, mas também de textos informativos em portais, newsletters, quadrinhos, fanfics e PDFs, entre outros conteúdos. Falando apenas em livros digitais — e-books e audiolivros —, o percentual é de 25% da população: ou seja, cerca de 47 milhões de pessoas leram ou consumiram um livro digital no último ano no Brasil.
Outro dado trazido à tona pela pesquisa é alarmante, mas confirma uma percepção que já existia no mercado: a maior parcela de quem lê no ambiente digital consome, ao que tudo indica, livros piratas. A maior incidência da pirataria se dá na Classe A.
O público leitor-digital mensurado pela pesquisa é predominantemente adulto, com maior concentração acima dos 25 anos. O celular é o principal dispositivo de acesso em praticamente todos os tipos de conteúdo, “consolidando a leitura como atividade móvel e distribuída ao longo do dia”, diz o texto de apresentação.

Para o CEO e co-fundador do Skeelo, Rodrigo Meinberg, o estudo confirma uma impressão antiga do mercado do livro, a de que o livro digital não canibaliza o livro físico. “Há complementaridade de oportunidades para o setor. A rede móvel alcança 100% do território nacional. Com um modelo como o nosso, as operadoras viram oportunidade de geração de valor, editoras viram nova oportunidade de distribuição, e, para o leitor, cria-se uma possibilidade concreta de leitura, antes barrada pelo preço e dificuldade de distribuição. As redes sociais geram descobertas, e a distribuição via rede móvel permite que esse conteúdo chegue aos leitores.”
A apresentação da pesquisa foi realizada em Brasília (DF), na Biblioteca Nacional, com a presença de autoridades de diferentes ministérios, parlamentares e diretores de agências de regulação do setor de comunicações e telecomunicações. Meinberg reforçou a relevância de um modelo regulatório que possa remunerar toda a cadeia do livro e oferecer ao leitor possibilidades concretas contra a pirataria. “Para mim, a próxima pergunta é: como escalar e levar a mais brasileiros essa grande oportunidade?”
De acordo com o co-fundador do Skeelo e presidente do novo Instituto para a Democratização do Livro Digital (IDLD), Rafael Lunes, o cenário da leitura no Brasil enfrenta um paradoxo. “Temos o maior nível de alfabetização da história, mas ao mesmo tempo muitos municípios sem livrarias ou bibliotecas. Nesse contexto, a pesquisa se torna uma peça estratégica. Revela como o brasileiro está lendo e como a tecnologia se tornou uma ferramenta para romper as barreiras da distribuição física. Para nós, esses dados provam que o uso da tecnologia derruba o estigma de que o brasileiro não gosta de ler. Acredito também que tecnologia e ambiente digital terão papel fundamental na execução do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL).”
Ele explicou que o IDLD nasceu da inconformidade dos sócios do Skeelo com a impressão geral de que o brasileiro não gosta de ler livros. “Nasce também da crença de que um país mais leitor é um país mais desenvolvido. Os dados desta pesquisa não são apenas números de mercado, mas um mapa inédito da leitura digital no Brasil.”
Livros e leitores digitais
Segundo o estudo, o acesso aos livros digitais no Brasil ocorre por uma combinação de fontes gratuitas, compartilhamentos, compras, assinaturas e benefícios incluídos em serviços, mostrando um mercado ainda bastante orientado por facilidade de descoberta e disponibilidade de conteúdo.
A Nielsen conclui que e-books e audiolivros atendem a necessidades complementares. “O e-book é escolhido principalmente pela facilidade de acesso, portabilidade e possibilidade de carregar vários títulos em um único dispositivo. Já o audiolivro se destaca pela compatibilidade com multitarefa, permitindo consumir conteúdo durante deslocamentos, tarefas domésticas e outras atividades.”
Ficção é o gênero que domina leitores tanto de e-books quanto de audiolivros, e o smartphone é entre todas os dispositivos o de maior acesso. Entre os principais motivos pelos quais as pessoas preferem ler pelo celular estão respostas como “o celular está comigo onde for, então é bem mais prático, não preciso carregar outro aparelho”, “na minha rotina uso mais o celular do que as telas maiores”, “possibilidade de ler ou ouvir em pequenos intervalos ou imprevisto do dia” e “o celular facilita a alternância entre a leitura e outras tarefas”. A maior parte das seções de leitura desses leitores dura de 15 minutos a 1 hora.

As perguntas da pesquisa relacionadas a acesso a livros digitais revela, ao mesmo tempo, um motivo de preocupação e uma oportunidade de captação para o mercado do livro: muita gente gosta de ler no ambiente digital, mas consome conteúdos “gratuitos” ou compartilhados e não sabem distinguir exatamente o que é legal e que é ilegal quando esse é o assunto. Na pergunta “Nos últimos 12 meses, de quais formas você obteve ou acessou seus livros digitais?”, as três principais respostas foram:
- Download ou acesso gratuito em sites, aplicativos ou links que não são lojas ou bibliotecas oficiais;
- Acesso gratuito (obras em domínio público, sites institucionais ou aplicativos que oferecem livros gratuitamente);
- Recebi arquivos digitais compartilhados por amigos ou familiars (PDF, imagem ou link).
“Não dá para saber se tudo isso é pirata”, explicou a coordenadora de pesquisas da Nielsen BookData, Mariana Bueno. “Alguns PDFs podem ser legais. Mas o que a gente tem é um indicativo de que muita gente acessa conteúdo ilegal. Proporcionalmente, quem mais acessa é a Classe A. No México, o cenário é parecido. Fica muito evidente também que as pessoas não sabem exatamente quando o conteúdo é legal e quando é ilegal. É difícil identificar quando tem direito autoral. São questões que podemos aprofundar enquanto setor.”
Entre razões que levariam os já leitores a consumirem ainda mais livros digitais, muitas estão relacionadas a possibilidades de catálogo. Acesso a livros exclusivos ou conteúdos especiais, catálogo mais amplo e atualizado, variedade além dos livros (por exemplo, podcasts narrativos ou séries em áudio) e funcionalidades que aprofundam a leitura, como marcações, notas e histórico, se destacam nas respostas dos leitores.
Barreiras
De acordo com os dados da Pesquisa, a principal barreira à leitura digital não é tecnológica, mas comportamental. Preferência por vídeos, redes sociais e livros impressos aparece com mais força do que questões de preço ou falta de acesso. Ainda assim, na avaliação da própria Nielsen, o potencial de conversão é relevante: a maioria demonstra disposição para experimentar e-books ou audiolivros gratuitos, especialmente quando o acesso é simples, sem custo adicional e integrado ao celular. Isso indica que estratégias focadas em conveniência, experimentação e redução do esforço inicial tendem a gerar mais resultados do que iniciativas centradas apenas em preço.
Metodologia
A pesquisa foi realizada pela Nielsen como uma encomenda do Skeelo, mas ambas as empresas concordaram desde o início do processo de que uma parte dos dados coletados teria interesse público e seria divulgada ao público. O instituto foi a campo entre os dias 1º a 11 de junho de 2026, e realizou um total de três mil entrevistas com indivíduos de 10 anos ou mais. O questionário foi distribuído via aplicativo de celular, tinha 66 questões, com perguntas fechadas e de múltipla escolha, com lógica de ramificação, direcionando os respondentes para os diferentes caminhos desenhados. Também foram respondidas perguntas em áudio, com o intuito de ter uma aproximação ainda maior da percepção do entrevistado. A margem de erro é de 3,5% e o nível de confiança é de 95%, de acordo com a Nielsen.
A partir das 13h desta quarta-feira (2) o estudo estará disponível para download no site do Skeelo.
*O jornalista viajou a Brasília a convite do Skeelo.
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