Tradução de Amadou Hampâté Bâ vence prêmio da Embaixada da França
Fernanda Murad Machado recebeu a 5ª edição do prêmio pela tradução de 'Njeddo Dewal, mãe da calamidade'; “Queer Zones”, traduzido por Caroline Micaelia e Henrique Provinzano Amaral, recebeu menção honrosa
A tradutora, professora e pesquisadora Fernanda Murad Machado venceu a 5ª edição do Prêmio de Tradução da Embaixada da França no Brasil por verter ao português a obra Njeddo Dewal, mãe da calamidade (Hedra, 2025), do escritor malinês Amadou Hampâté Bâ (1901-1991), publicada originalmente em 1993. O resultado foi anunciado nesta sexta-feira, 28 de agosto, em cerimônia no Auditório Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional, no Centro do Rio. A premiação recebeu 30 candidaturas de obras francófonas de ficção e não ficção publicadas no país entre maio de 2025 e abril de 2026.
Professora da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fernanda tem uma relação de longa data com a obra de Hampâté Bâ. Formada em Letras Modernas pela Universidade Paris-Sorbonne, onde também fez mestrado e doutorado, a pesquisadora se dedica às literaturas africanas francófonas e publicou, em 2015, L’univers fabuleux d’Amadou Hampâté Bâ, estudo sobre o escritor. Ao receber o prêmio, contou que nem sabia que a tradução estava na disputa, tendo sido inscrita pela Hedra.
“Fico feliz pelo destaque que vai dar para a obra do autor aqui no Brasil”, afirmou Fernanda, que encontrou em Hampâté Bâ uma porta de entrada para as literaturas do continente africano. Para ela, a tradução sempre esteve ligada ao próprio trabalho como crítica literária e pesquisadora, como uma forma de ampliar a transmissão, o diálogo e as trocas entre culturas. Como prêmio, Fernanda fará uma viagem à França para uma agenda de pesquisas e encontros profissionais.
Njeddo Dewal, mãe da calamidade é um conto iniciático do povo fula, presente em diferentes regiões da África Ocidental. A narrativa reúne elementos míticos, filosóficos e religiosos e nasce de uma tradição transmitida oralmente. Hampâté Bâ dedicou boa parte de sua vida à coleta, preservação e divulgação das tradições orais da região, levando-as ao texto escrito sem apagar características da performance, como cantigas, repetições, diálogos e fórmulas próprias da contação de histórias do seu povo.
Para Flávia Lago, integrante do júri e vencedora da edição anterior do prêmio — pela tradução de Senhor Vênus (Ercolano, 2024), de Rachilde (1860-1953) —, essa dimensão tornou o trabalho de Fernanda particularmente relevante. “Esse livro era necessário, de um autor ainda pouco conhecido no Brasil, que me impressionou pela carga mítica e fantástica da criação desses mundos. A tradução da Fernanda deixa evidente que foi o trabalho de uma vida, cercado de muita pesquisa”, afirmou, durante a cerimônia.
Também integrante do júri, a professora e tradutora Laura Barbosa Campos destacou a perspectiva oferecida pela obra de Hampâté Bâ. “É um autor que traz a África sujeito, de dentro, não uma África objeto. Fernanda Murad conseguiu traduzir o livro de forma magistral”, disse, para uma plateia atenta, formada por muitos tradutores.
A edição brasileira recupera ainda notas e comentários escritos pelo próprio Hampâté Bâ sobre a simbologia e a cultura fula. De acordo com o professor, escritor e tradutor Marcelo Jacques de Moraes, terceiro jurado da edição, a Hedra fez questão de incorporar as notas originais do autor, que não estavam disponíveis na edição de bolso, utilizada pela banca. Fernanda lembrou que as notas eram parte fundamental do projeto intelectual do autor malinês.
“Hampâté Bâ dedicou a vida a trazer a oralidade do seu povo e do seu tempo para o papel. Tem livro dele com mais notas de rodapé do que texto”, contou, antes de dedicar a conquista à sua mãe, a jornalista e também tradutora Fátima Murad. A tradutora premiada pontuou que a maior preocupação de Hampâté Bâ era tornar aquele conhecimento acessível a diferentes leitores, inclusive às novas gerações do Mali e de outros países africanos que já cresciam atravessadas por outras referências culturais em consequência da colonização.
Um retrato diferente da tradução
A qualidade do conjunto de inscritos chamou bastante a atenção do júri. Para Marcelo Jacques de Moraes, a seleção revela uma mudança no interesse das editoras brasileiras pela literatura francófona. “Se esse prêmio fosse há 15 anos, a gente não teria esse retrato. Todos os trabalhos editoriais são de alta qualidade. As editoras estão investindo nesse público leitor e o mercado editorial brasileiro está muito antenado”, avaliou.
A escolha, segundo ele, esteve longe de ser simples. Das 30 candidaturas recebidas nesta edição, 13 obras foram pré-selecionadas para a etapa final. “Como todo prêmio, tem um lado de justiça e injustiça. Foi muito difícil escolher entre os 13 porque a gente poderia premiar oito ou nove sem pestanejar. No fundo, muitos mereceriam ganhar”, disse Marcelo, com a concordância de suas colegas de banca. Uma delas recebeu menção honrosa: o ensaio Queer zones 2: sexopolíticas (Crocodilo Edições), de Sam Bourcier, traduzido por Caroline Micaelia e Henrique Provinzano Amaral.
Flávia Lago contou que chegou a reler obras de uma semana para outra a fim de verificar se enxergava algo novo. Além da tradução propriamente dita, o júri levou em consideração outros critérios, como projeto editorial e notas e informações oferecidas ao leitor nos prefácios e prólogos das obras pré-selecionadas. “São critérios que ajudam a gente a seguir uma rota, até para não deixar o gosto pessoal escolher, afinal. Senti um cuidado editorial muito refinado em textos de origens diversas, mas todos feitos sobre muita pesquisa, nota e informação, que também entram na avaliação. Deram muitos empates!”
Também chegaram à seleção final as duas peças de teatro A catedral dos porcos & Ópera poeira (Ars et Vota), traduzidas por Prisca Agustoni; Contos dos sábios crioulos (Editora 34), de Patrick Chamoiseau, traduzido por Raquel Camargo; A condessa ensanguentada (Ercolano), de Valentine Penrose, traduzida por Flávia Falleiros; e o ensaio Civilização ou barbárie: antropologia sem complacência (Edições Sesc São Paulo), de Cheikh Anta Diop, traduzido por César Sobrinho.
Promovido pelo Escritório do Livro da Embaixada da França no Brasil, o prêmio busca dar visibilidade ao trabalho dos tradutores do francês e também destacar obras, editoras e projetos editoriais.
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta
