O que estou lendo: Tatiana Antunes
Única carioca em família nordestina, a livreira e tradutora carioca diz que 'Salvar o fogo' a leva de volta para as incontáveis histórias que escutou quando visitava os parentes
“Salvar o fogo (Todavia, 2023) foi o primeiro livro do Itamar Vieira Junior que li e foi muito impactante. Pela força da narrativa, pela construção rica, cheia de camadas e nuances das personagens, e por ser uma história tão local e universal ao mesmo tempo.
Isso me interessa e me traz muita identificação: a partir de um povoado à beira do Rio Paraguaçu, na Bahia, falar da condição humana em detalhes, das pequenas e grandes violências do dia a dia, de abusos que mudam o rumo da vida, da luta por terra, da força de uma mulher cuja aparência entrega um corpo frágil e combalido, mas que é uma leoa, dos segredos, dos vícios que desmantelam uma família, do êxodo, das perdas, do reencontro e da reconexão. Tudo isso envolto em um quase realismo mágico, que eu adoro, com a integração mística entre Luzia e o fogo.
O momento que mais amo é o do reencontro da família, depois de uma grande perda para todos. Os irmãos, há muito afastados pela decisão de ir em busca de algo melhor mundo afora, se reúnem com a doença do pai, e a distância emocional entre eles se dissolve em diferentes graus. O retorno àquelas terras, à casa onde cresceram, ao ambiente da cidade, com todas as mazelas que isso inclui, resgata lembranças boas, experiências traumáticas guardadas em silêncio por anos, afetos e uma intimidade que havia sido esquecida pelas circunstâncias da vida, que levaram cada um a buscar seu caminho longe do povoado. Itamar faz as verdades negadas entre Luzia e Moisés e Luzia e Maria Cabocla virem à tona com força e beleza.
O livro é especial para mim também porque sou praticamente a única carioca de uma família inteiramente nordestina. Salvar o fogo me remete a inúmeras histórias que ouvi e até mesmo presenciei cada vez que visitei os parentes. Fui uma criança criada em um apartamento da Zona Norte do Rio, com as limitações que isso traz. As idas frequentes ao Nordeste nas minhas férias alargavam meus horizontes. Eram outros costumes, outra melodia na fala, outra realidade, a deles e a minha, e eu me sentia infinitamente livre, brincando na rua, sem os limites da “cidade grande” e, paradoxalmente, sem correr perigos.
Digo paradoxalmente porque os perigos estão todos lá, e o livro nos mostra isso. Minha família não tem grandes semelhanças com a do livro, minha vida muito menos. Não vivi o que as personagens passam, mas Itamar faz cada vida e cada situação ali ser mais do que verossímil; é tudo palpável. A forma como ele constrói a narrativa te leva para dentro de cada história, te faz torcer, temer e se emocionar como se a gente conhecesse aquilo, como se fizesse parte deles. É incrível.”
Tatiana Antunes é livreira, tradutora e mestre em Estudos da Linguagem. Como coordenadora da Janela Livraria em Laranjeiras, no seu Rio de Janeiro natal, vive entre pilhas de livros.
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