Três Perguntas do PN para Irka Barrios
Escritora gaúcha lança romance inspirado em enchente que devastou a cidade onde viveu a infância e parte da adolescência em sua estreia pela Autêntica Contemporânea
Em Porto Alba, a escritora gaúcha Irka Barrios imagina uma cidade de fronteira onde a vida de seus moradores é moldada pelo medo, pelas crenças e pelos interesses econômicos. Sem recorrer a respostas prontas, o romance investe na ambiguidade e aproxima o fantástico das inquietações do presente, em uma narrativa densa que marca a estreia da autora na editora mineira Autêntica Contemporânea.
Na sexta-feira, 14 de agosto, a partir das 19h, Irka vai realizar mais uma noite de autógrafos do novo livro. Desta vez, em Recife. Irka participará de um bate-papo com a escritora Patrícia Gonçalves Tenório na Livraria Leitura do Shopping Recife (Rua Padre Carapuceiro, 777, em Boa Viagem).
Ao falar sobre o lançamento, a autora amplia a discussão para o mercado editorial. Irka vê com otimismo o crescimento dos clubes de leitura, a formação de nichos e um olhar mais generoso para autores brasileiros. Para Irka, a literatura especulativa “forma leitores” e começa a alcançar novos públicos, à medida que o Brasil se permite explorar cada vez mais o mágico e o sobrenatural.
Nesta edição semanal do Três Perguntas do PN, Irka Barrios relembra o processo de escrita de Porto Alba e explica como o romance aprofunda temas que atravessam a sua obra e, ao mesmo tempo, inaugura uma nova etapa na carreira literária, após uma década dedicada à literatura. Leia a entrevista!
PUBLISHNEWS — Porto Alba apresenta uma cidade de fronteira onde ciência, conhecimento popular, interesses econômicos e crenças convivem em permanente tensão. Em nenhum momento o livro oferece respostas fáceis para esses conflitos. O que a fez construir uma narrativa que prefere sustentar as ambiguidades em vez de resolvê-las?
IRKA BARRIOS — Porto Alba, a cidade, a história que a cidade conta, seus personagens e conflitos compõem uma narrativa que escapa do real, ainda que se apoie em bases bem realistas. O romance tem uma atmosfera que flerta com o fantasioso, em alguns pontos chega a tocar o surrealismo, algo bastante presente na minha produção. Os absurdos de nossos dias explicam parte dos rumos que a história tomou. Depois da pandemia de covid, da enchente de 2024, das guerras, crises políticas e econômicas, e tantos outros eventos extremos, o novo normal nos acostumou a naturalizar o “inaturalizável”. A revolução da comunicação por meio das redes sociais, a pós-verdade e as fake news colaboraram muito para esse panorama. O que era impensável foi, aos poucos, se apropriando da rotina das pessoas. E muito de nossas atitudes desesperadas têm origem nos medos (reais e irreais) que acumulamos.
O ponto de partida de Porto Alba foi o medo de uma comunidade que vive a ameaça de desaparecer. A partir do mote inicial, imaginei pessoas convivendo com esse medo que passou a ser, também, tão meu. Pessoas como todos nós, que ingressamos no novo milênio vulneráveis a teorias da conspiração, discursos de ódio, ideologias controversas.
Sustentar as ambiguidades foi um exercício de tentar seguir a linha de raciocínio de pessoas amedrontadas. Para certas crises, não há resolução. A ponta do nó, se é que existe, está ligada ao instinto de proteção. Pessoas tomam decisões desesperadas quando buscam sobreviver.
Inicio minha resposta contando que Porto Alba pertence a um universo fantasioso, mas logo em seguida, ao repensar, concluo que é uma irrealidade bem possível.
PN — Em um mercado editorial cada vez mais acelerado e marcado pela busca de histórias de impacto imediato, Porto Alba aposta na construção paciente da atmosfera e na ambiguidade. Você sente que hoje ainda existe espaço para romances que desafiam o leitor e recusam respostas prontas? Como enxerga o atual momento da literatura brasileira?
IRKA — Percebo que o público leitor é, hoje, muito mais reativo, no sentido de enviar retornos em velocidade recorde. É um comportamento surpreendente e, de certo modo, sedutor porque me faz pensar que o leitor se apegou à personagem a ponto de desenvolver uma relação íntima com ela. Reações passionais em resposta ao texto envaidecem qualquer pessoa que escreve, não há como negar.
Porém, não sou roteirista, sou escritora. E o tempo do livro transcorre de forma diferente do tempo do audiovisual. A ambientação necessita de um processo de adaptação que demanda uma narração mais lenta e descrições que exaltam certos detalhes. Histórias como Porto Alba exigem o mergulho da pessoa leitora. É preciso cruzar o limiar da porta do real para ingressar em Porto Alba. Penso que o efeito da suspensão da descrença se torna mais difícil em histórias mais aceleradas.
Por isso, vou citar Clarice Lispector. No início de seu livro A paixão segundo GH, ela diz algo como “espero que este livro te chegue no momento certo”. Imagino que o momento certo de Porto Alba seja aquele em que a pessoa leitora busque entrar ali e se deixar desafiar.
Sobre o mercado atual, vejo tudo com otimismo. A disseminação de clubes de leitura me alegra demais, a formação de nichos de leitores, o olhar mais generoso para autoras e autores nacionais, enxergo um panorama animador. A literatura especulativa forma leitores, e isso sempre foi um norte para mim. Mas é preciso ampliar, chegar em mais públicos. Vejo leitores de uma literatura mais realista buscando outros gêneros. Aos poucos, o Brasil se reconhece mais latino-americano, permitindo-se mais o mágico e o sobrenatural.
PN — O que este romance representa para você? Ao olhar para a carreira na escrita, sente que a história abre uma nova fase da sua obra ou aprofunda questões que já atravessavam livros anteriores?
IRKA — Porto Alba nasceu de uma inquietação e se transformou em várias. Tenho forte ligação com a cidade que inspirou o romance, nasci e vivi parte da adolescência lá. Conheço as dúvidas locais, a promessa da barragem e da ponte, cresci ouvindo lendas sobre as cheias do rio Uruguai, os perigos, os afogamentos, a truculência dos agentes de imigração na Argentina.
Como era de se esperar, o fato de eu ter sido diretamente atingida pela enchente de 2024 intensificou algumas sensações que eu já explorava no romance (comecei a escrevê-lo em 2020).
No início, a personagem Ana está parcialmente isenta do conflito dos habitantes locais. Aos poucos, em relações ambíguas, ela se rende a Porto Alba. A construção de Ana me fez revisitar temas caros à minha produção. Suas questões íntimas, ligadas ao corpo e à sexualidade, que sempre encontraram ressonância em meus livros, tanto nos contos de Vespeiro (DarkSide Books, 2023) e de Júpiter Marte Saturno (Zouk, 2025) quanto em meu romance Lauren (Caos & Letras, 2019).
Gosto de imaginar que Ana é uma Lauren adulta. Os medos, dúvidas e inseguranças das mulheres não desaparecem com o tempo. Eles se redirecionam. Talvez por isso eu me sinta tão conectada a esses questionamentos que surgem de uma raiva frente às desigualdades de gênero. As mulheres de Porto Alba, gosto de pensar, são bem resolvidas com suas sexualidades. Para a forasteira Ana, resta se adaptar.
Acho que Porto Alba, minha estreia em uma nova casa editorial abre uma nova fase porque me direciona a outros públicos. Devo confessar minha alegria em publicar pela Autêntica Contemporânea, casa que tão bem me acolhe. Acho importante realizar esse movimento de levar a literatura especulativa para além do nicho. Gosto de ser uma autora que pisa em muitos terrenos.
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