Publicidade
Voltar ATUALIDADES

A pressão de gostar

13 de fevereiro de 2026
4 min de leitura
Carnaval no Rio © Tânia Rego / Agência Brasil
Carnaval no Rio © Tânia Rego / Agência Brasil

"Quantas vezes um livro se torna unanimidade e custamos a entender o porquê. O título do momento, o romance “imperdível” — e, de repente, não gostar dele parece quase um desvio de conduta?". Leia!

Eu não gosto de Carnaval.

Talvez seja bizarro fazer uma confissão dessa na véspera da folia. Para muitos, essa declaração pode soar quase como um insulto. Mas tenho a convicção de que não estou sozinha nesse time.

Basta a virada do ano e o assunto passa a ocupar todos os espaços. Blocos de rua acontecem já no primeiro final de semana de janeiro. O planejamento da folia domina conversas entre amigos. Notícias de jornal, influencers e celebridades dando receitas para entrar em forma. Looks, o hit do carnaval… O cotidiano parece se organizar em função da festa.

Entra fevereiro e a cidade inicia uma contagem regressiva para a celebração coletiva que parece não admitir dissidência. Quem não gosta é olhado de lado, como um ser de outro planeta.

Ame ou odeie: por que o Carnaval provoca emoções tão conflitantes? A psicologia responde.

Esse foi o título de uma matéria publicada em 05 de fevereiro no jornal O Globo. É claro que me interessei. Saber que existe uma explicação científica para a minha rejeição foi um alívio.

Segundo a reportagem, o Carnaval ativa múltiplos estímulos sensoriais simultâneos, o que pode gerar reações opostas em diferentes indivíduos. O excesso de estímulos impacta diretamente o sistema límbico, responsável pelas emoções, pelo prazer e pelo estresse.

A psiquiatra entrevistada explicou que algumas pessoas vivenciam euforia, prazer e sensação de pertencimento, porque seu organismo libera mais dopamina, endorfina e ocitocina. Outras pessoas, porém, liberam mais cortisol e noradrenalina, e o cérebro interpreta o excesso como algo imprevisível e invasivo, aumentando a ansiedade e a irritação.

Contudo, longe das explicações neuropsicológicas, o incômodo não está na festa em si, mas na pressão de pertencer a algo em que não se encaixa.

Essa sensação não é exclusiva do Carnaval. A própria literatura é um bom exemplo disso. Quantas vezes um livro se torna unanimidade e custamos a entender o porquê. O título do momento, o romance “imperdível” — e, de repente, não gostar dele parece quase um desvio de conduta? O problema não é o livro. É a expectativa de que todos sintam a mesma coisa.

Essa pressão também é mercadológica. O mercado editorial vive de ciclos. Há sempre um gênero dominante, um estilo predominante ou um “livro do momento”. As redes sociais amplificam essa lógica: não basta ler, é preciso ler o que está em alta. Não basta gostar, é preciso gostar do que todos estão comentando.

Mas leitura não é competição e não deveria ser obrigação. A experiência literária é íntima e intransferível e, de preferência, prazerosa. Um best-seller pode não tocar todo mundo e isso não invalida nem o livro, nem o autor, muito menos o leitor.

A leitura, quando vira obrigação social, perde sua função essencial. Ler não é concordar, muito menos aderir sem se encontrar. É preciso se reconhecer. Às vezes, determinada narrativa simplesmente não fala com você. E isso também é legítimo.

Durante muito tempo leitores da comunidade LGBTQIA+ não se viam representados nos livros. Não era desinteresse pela leitura, mas falta de conexão. O distanciamento vinha da exclusão. Felizmente, há alguns anos, isso vem mudando e a literatura queer segue crescendo. Ganham os leitores, os autores, o mercado e a cultura.

Cultura que só funciona por adesão obrigatória não gera sensação de pertencimento. Nem toda festa é para todo mundo. Nem todo livro precisa ser amado. Nem toda experiência coletiva precisa ser compartilhada da mesma forma.

Talvez o verdadeiro exercício de convivência esteja aí: aceitar que nem todos vibram no mesmo ritmo. Que gostar é escolha. E que não se sentir parte de um todo, às vezes, é apenas sinal de que ainda estamos criando outros espaços para viver.


* Luciana de Gnone é uma autora e roteirista de ficção policial conhecida por suas narrativas que destacam o protagonismo feminino. Nascida em Brasília e radicada no Rio de Janeiro há mais de 40 anos, ela tem 6 livros publicados. Seu lema é ‘menos sangue gráfico e mais investigação’, com um foco nas dinâmicas sociais que desafiam a sociedade contemporânea. Recebeu uma Menção Honrosa da Academia de Letras e Música do Brasil e semifinalista do 7º Prêmio ABERST de Literatura em 2024. Luciana também produz a newsletter #Evidenciando e administra o perfil @elasinvestigam no Instagram, dedicado a fãs de entretenimento policial protagonizado por mulheres.

Compartilhar:
Monica Ramalho

Leia Também

Gostou deste conteúdo?

Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email

Toda segunda e quinta
Publicidade