Hora de renovar o compromisso com a educação e o PNLD
Em artigo publicado no site da AbreLivros, Ângelo Xavier, presidente da associação, escreve sobre percalços recentes envolvendo o Programa Nacional do Livro e do Material Didático
Um novo ano começa e, assim como ocorreu em 2025, traz expectativas e agendas positivas, mas também preocupações e desafios para a educação e o setor editorial brasileiro.
O ano que terminou foi marcado por boas notícias. O Rio de Janeiro foi a Capital Mundial do Livro, tornando-se a primeira cidade de língua portuguesa a receber este título da Unesco, num compromisso com a promoção da leitura e literatura e com a nomeação se estendendo até 23 de abril de 2026.

A Bienal do Livro Rio, em junho, foi um sucesso de público e de vendas para as editoras, com mais de 740 mil visitantes e 6,8 milhões de exemplares vendidos. No entanto, apesar das conquistas, tivemos também a divulgação da pesquisa Retratos da Leitura, trabalho de fôlego e referência que tem a Abrelivros como uma das apoiadoras. A pesquisa traz dados preocupantes: houve uma redução de 6,7 milhões de leitores desde o último levantamento, em 2019, e pela primeira vez na série histórica, a proporção de não-leitores (53%) superou a de leitores (47%).
O desafio de reverter essa queda nos índices de leitura passa pela valorização e pelo acesso ao livro na escola, durante o período crucial da formação dos alunos nos ensinos fundamental e médio.
No Brasil, este acesso se dá principalmente pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). É a maior e mais longeva política pública de distribuição gratuita de material didático do mundo, iniciada em 1937, e que faz chegar aos estudantes de escolas públicas mais de 100 milhões de livros anualmente. Entretanto, o PNLD, infelizmente, ainda está sujeito a percalços, sobretudo por não haver dotação orçamentária obrigatória para o programa, bandeira defendida pela Abrelivros e pelos mais variados atores do setor de educação.
Tendo orçamento reduzido nos últimos cinco anos, apesar de uma demanda cada vez maior. Em 2025, os R$ 2,05 bilhões destinados ao programa não atenderam à necessidade total de aquisição do material didático e houve um esforço na recomposição orçamentária que, ainda assim, não deu conta de todas as compras previstas, que somavam R$ 3,5 bilhões.
Desta diferença de R$ 1,5 bilhão, o MEC conseguiu cerca de R$ 700 milhões de complementação. O valor foi empenhado em sua totalidade e está em processo de execução. O complemento foi importante, mas não suficiente para atender à total necessidade do programa e o atraso ocorrido nas compras gerou acúmulo de trabalho gráfico e logístico para os livros, trazendo impactos para a chegada em sala de aula.
Já começamos 2026 com a luz amarela. A aprovação do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA), em dezembro, manteve o valor de 2025. A lacuna, levando em consideração os programas do PNLD a serem executados neste ano e o que foi represado, deve alcançar outros cerca de R$ 1,5 bilhão, pelo menos.
Estão previstos: um novo programa de Ensino Fundamental Anos Iniciais; as reposições (incluindo Ensino Fundamental Anos Finais e Ensino Médio); um programa Literário de Educação Infantil do PNLD 2026 e a execução do Programa Literário Equidade. Entre a lista de programas previstos, devem ser incluídas partes do programa represado no ano passado, como a Categoria 2 e os livros digitais do PNLD 2026 Ensino Médio, e os programas em atraso como os Literários de 2023 e de 2024.
Fizemos, pela Abrelivros, um esforço de conscientização em várias tentativas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o que resultou em propostas de emendas parlamentares ao PLOA nas comissões de orçamento, ao fim não aprovadas. Novamente, o MEC terá que fazer esforço para dar conta das compras necessárias, cumprir o calendário e evitar problemas na distribuição do material didático.
No fim do ano, surgiu uma Lei Complementar 223/2025, prevendo que certas despesas para as áreas da saúde e educação financiadas com recursos do Fundo Social, fiquem fora dos limites do arcabouço fiscal (antigo teto de gastos), abrindo espaço para cerca de R$ 1,5 bilhão por ano, nos próximos cinco anos. Esperamos que essa nova possibilidade possa auxiliar na recomposição do orçamento, para garantir o atendimento de milhares de alunos e professores dos Programas do Livro.
O PNLD é um pilar essencial da educação brasileira, não apenas por garantir o acesso universal ao livro e ao material didático, mas por seu impacto direto na formação de leitores críticos, na melhoria dos indicadores de aprendizagem e na redução das desigualdades.
Proteger e fortalecer o PNLD é, portanto, uma decisão estratégica que ultrapassa governos e calendários eleitorais, reafirmando o compromisso do Brasil com a educação como fundamento de seu projeto de nação.
*Artigo publicado originalmente no portal da AbreLivros no dia 30 de janeiro de 2026.
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta
