Amazon cria um souk para livros digitais árabes
Biblioteca Árabe Digital pode marcar um ponto de virada para os livros digitais no mundo árabe
Em setembro de 2025, na abertura do Congresso de Indústrias Criativas e Árabes em Abu Dhabi, o Khalifa Al Mubarak, presidente do Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi, anunciou uma parceria com a Amazon para criar o que foi descrito como a maior biblioteca digital de livros do mundo. Na época, o anúncio despertou curiosidade — e dúvidas —, mas ofereceu poucos detalhes concretos.
Mesmo o painel de discussão intitulado “Desbloqueando o Potencial de Audiolivros da Região MENA” (Oriente Médio e Norte da África), realizado mais tarde naquele dia e com a presença de Paulo Lemgruber, da Audible, trouxe pouca clareza sobre o assunto.
Isso mudou há alguns dias. Em 15 de janeiro, a Amazon confirmou formalmente o lançamento de sua Biblioteca Árabe Digital em parceria com o Centro de Língua Árabe de Abu Dhabi (ALC). Antes de examinar suas implicações, porém, um esclarecimento semântico é necessário.
Apesar do rótulo de “biblioteca”, a plataforma funciona como uma vitrine comercial digital. Os títulos são vendidos, não emprestados — o que a torna mais próxima de um e-commerce do que de uma biblioteca no sentido tradicional. Nesse aspecto, assemelha-se mais a um souk (mercado tradicional árabe) digital do que a uma instituição pública. Ainda assim, a escala é significativa: a plataforma foi lançada com 38 mil títulos, incluindo 33 mil e-books e 5 mil audiolivros, além de mil títulos gratuitos. Independentemente da terminologia, isso representa um marco digital importante para a publicação em língua árabe.
A iniciativa foi impulsionada pelas autoridades culturais de Abu Dhabi, com o Centro de Língua Árabe (ALC) desempenhando um papel central. Operando sob o Departamento de Cultura e Turismo, o mandato do ALC inclui a digitalização de conteúdo árabe e o fortalecimento da visibilidade da literatura árabe no cenário global.
“Dada a pequena porcentagem de conteúdo árabe disponível online, apesar do grande número de falantes do idioma, esta iniciativa desempenhará um papel importante na derrubada de barreiras, no aumento do acesso à literatura árabe e no fortalecimento da conscientização no cenário internacional”, afirmou Ali bin Tamim, presidente do ALC, em um comunicado.
Um desenvolvimento “crucial”
De acordo com a Amazon, nos próximos três anos o ALC colaborará com editores em todo o Oriente Médio e Norte da África para expandir o catálogo, enquanto a empresa promove esses títulos para sua base global de clientes.
As implicações comerciais são tão significativas quanto as culturais. Na última década, o mundo árabe viu múltiplas iniciativas regionais e locais em e-books e audiolivros. Mas, apesar da forte ambição e do claro potencial de mercado, poucas alcançaram a escala ou a tração necessária para mobilizar totalmente a indústria editorial.
Entre esses esforços estão a Iqraaly, uma plataforma egípcia de audiolivros, e a Abjjad, um serviço de assinatura de e-books jordaniano fundado em 2012. Nos Emirados Árabes Unidos, a Rufoof desempenhou um papel pioneiro como livraria digital e provedora de tecnologia para varejistas regionais, incluindo a Jarir, na Arábia Saudita.
Entre os players globais, a Storytel tem sido a presença mais visível na região, após a aquisição da plataforma de audiolivros árabes Kitab Sawti em 2020. A empresa sueca investiu pesadamente na aquisição de direitos e produção, construindo um catálogo de aproximadamente 7 mil títulos. No entanto, quando a Storytel estreitou seu foco estratégico para dez mercados principais, suas operações locais no Egito, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita foram despriorizadas, limitando o crescimento futuro.
Nesse contexto, a chegada da Amazon — e da Audible, em particular — é um desenvolvimento crucial, especialmente dada a escala de seu catálogo de lançamento. A estreia da Audible com 5 mil audiolivros em árabe é impressionante por qualquer padrão. Para montar tal catálogo em um curto período, a Audible adquiriu cerca de metade dos títulos da Storytel. Outros 2 mil livros em áudio vieram da Arabookverse, um hub de serviços e distribuição digital baseado no Egito e nos Emirados Árabes Unidos, que também forneceu aproximadamente metade dos e-books disponíveis no Kindle.
O potencial de longo prazo para livros digitais em árabe — em e-books e audiolivros, modelos à la carte e de assinatura — é substancial. Os desafios estruturais permanecem significativos, mas a entrada da Amazon e da Audible pode atuar como o catalisador necessário para acelerar a adoção, fortalecer a confiança dos editores e expandir o público leitor. Ao fazer isso, pode elevar o nível de todo o ecossistema, incluindo os players digitais regionais.
Também vale notar que o Spotify começou a oferecer audiolivros em inglês na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos em novembro passado, ressaltando ainda mais o crescente interesse global na região.
Se for bem-sucedida, a Biblioteca Árabe Digital da Amazon poderá marcar um ponto de virada para os livros digitais no mundo árabe. Inshallah.
*O artigo foi publicado originalmente no Publishing Perspectives e reproduzido no PublishNews com autorização do autor e da plataforma americana.
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