Diálogo entre literatura e dramaturgia: a potência cênica de ‘Triste! Triste… Triste?’
Peça escrita e dirigida por Nicolas Ahnert, com atuação visceral de Thalles Cabral, tem últimos dias em cartaz em São Paulo
Triste não é ao certo a palavra (Companhia das Letras), de Gabriel Abreu, é uma obra que pulsa para além de si mesma, que pede voz, gesto, presença. Não surpreende, portanto, que encontre agora um desdobramento tão potente quanto íntimo em Triste! Triste… Triste?, peça escrita e dirigida por Nicolas Ahnert, com atuação visceral de Thalles Cabral.
Ahnert compreende que adaptar não é transcrever, é traduzir vibrações. Sua dramaturgia se aproxima do livro por dentro, buscando o que nele não se nomeia com facilidade e o que está em potência: a dor que não cabe na linguagem, a palavra que falha, o sentido que se desfaz no instante em que tenta se afirmar. Em vez de explicitar, ele escolhe tensionar. Em vez de ilustrar, ele expõe o vazio, esse território movediço em que Gabriel Abreu constrói a experiência do indizível.
Thalles Cabral torna essa vibração matéria. Sua atuação é feita de nuances, hesitações, silêncios, pequenos gestos que se alargam diante do público. Ele não interpreta o texto, ele o atravessa. Fui assistir a peça com toda a família e, confesso, demorei para digerir o que vi, ouvi e senti, por isso a demora em escrever sobre.
A encenação aposta no mínimo, e é justamente nesse mínimo que reside sua força. A luz rarefeita, os poucos objetos, o palco passarela com uma estrutura com água dentro, tudo isso cria um espaço de suspensão, quase um terreno liminar, onde o público entra em contato com aquilo que escapa da linearidade e das certezas. Nicolas Ahnert depura o palco, assim como Abreu depura a linguagem, e dessa dupla depuração nasce um encontro profundo entre literatura e corpo.
A peça não pretende domesticar o livro, e essa recusa é uma de suas maiores virtudes. Como no texto original, a palavra “triste” não funciona como diagnóstico, nem como limite. Ela é abertura. É campo de tensão. É convite. Em cena, ela se torna movimento, ressonância, risco.
Ao final, Triste! Triste… Triste? devolve ao público uma experiência que ecoa Gabriel Abreu sem jamais tentar imitá-lo. A peça confirma que algumas obras, quando atravessam para outro meio, não se diluem, mas se amplificam. E que o teatro, quando guiado por escuta e rigor, é capaz de fazer a palavra respirar de um modo novo.
Há uma força particular nesse encontro entre literatura e palco. Talvez seja justamente aí que a peça se torna tão necessária: ao lembrar que a tristeza, assim como a linguagem, se move, se deforma, se abre, nunca se fecha completamente. E que a arte, quando assume esse movimento, encontra sua potência mais verdadeira.
Indicação:
Peça: Triste! Triste… Triste?
Local: Teatro Do Núcleo Experimental (R. Barra Funda, 637, Barra Funda – São Paulo / SP)
Última semana em cartaz
Dias: sábado e domingo, 29 e 30 de novembro
Ingressos: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia)
Link para ingressos: https://www.sympla.com.br/even…
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