Reler a si mesma: quando a maternidade também nos escreve
Em 'Engravidei' (Caravana Grupo Editorial), Andrea Nunes se lança num mergulho íntimo e corajoso
Quem escreve, sabe: existe sempre um risco em se reler. As palavras que você um dia confiou ao papel voltam como espelhos, às vezes embaçados, às vezes cortantes, quase sempre transformadores. Em Engravidei (Caravana Grupo Editorial), Andrea Nunes se lança nesse mergulho íntimo e corajoso: revisita o blog que alimentou durante sua gravidez, dez anos depois, e reencontra uma versão sua que já não existe, mas que ainda ecoa.
O livro nasce do encontro entre duas mulheres separadas por uma década: a grávida assustada que digitava seus medos em silêncio na internet e a mãe exausta, forte e bem-humorada que agora lê essas confissões com um sorriso no rosto e olheiras nos olhos. A partir desse reencontro, Andrea escreve Engravidei, uma autoficção em formato de diário fragmentado, real e por vezes hilário sobre a experiência visceral da maternidade.
Mas o que mais comove aqui não é o riso (embora ele apareça com frequência, como válvula de escape), e sim a honestidade. Andrea escreve como quem entrega o colo: sem julgamentos, sem fórmulas, sem esconder o caos. Suas palavras não querem doutrinar a maternidade, querem acolher quem a vive. São textos que abraçam as inseguranças, o cansaço, a solidão, os tropeços, e também os pequenos milagres do cotidiano com uma criança.
Há uma delicadeza rara em escrever sobre a maternidade sem idealizá-la. Andrea consegue. Porque ao invés de oferecer respostas, ela compartilha perguntas: quem eu era antes de parir? Quem me tornei? Onde me perdi e onde me reencontrei no meio do caminho?
Engravidei não é apenas um livro sobre ser mãe. É sobre lembrar quem você foi, olhar com generosidade para essa mulher e perceber que, mesmo nas noites insones, entre fraldas e medos, você estava se parindo também.
Para mães de primeira viagem, para as veteranas, para as que pensam em ser e para as que decidiram não ser, este livro não traz um manual, traz companhia, traz acolhimento por meio das palavras. E, no fim das contas, talvez seja isso o que mais precisamos: alguém que diga “eu também passei por isso” e consiga rir junto do que antes parecia só dor.
Andrea Nunes escreveu sobre o começo de tudo. E ao fazer isso, nos lembra que toda mulher que engravida não cria apenas um filho. Cria, também, uma nova versão de si mesma.
Livro indicado:
Engravidei, de Andrea Nunes
Editora: Caravana Grupo Editorial
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