Futuros Compostos | De atividade ‘morta’ à tagarelice: o futuro da leitura
Com o apoio da IA, plataformas de leitura assistida podem replicar a experiência de um tutor humano, oferecendo insights e contexto sobre os textos
“O verdadeiro benefício da IA não está no que ela pode gerar, mas em como pode curar e distribuir comentários originais. O conteúdo continuará sendo rei por um longo tempo, talvez para sempre, especialmente quando se trata de leitura”, afirmou John Kaag, cofundador e diretor de criação da Rebind Publishing, no SXSW 2025. A apresentação dele – De Gutenberg a GPT: IA e o Futuro da Leitura, em livre tradução – forneceu uma visão sobre qual é esse capítulo que a inteligência artificial está abrindo na história da humanidade.
Professor de filosofia e autor de livros dessa área do conhecimento, Kaag tem se dedicado a escrever sobre a intersecção de tecnologia e cultura em veículos como The New York Times, Wall Street Journal e Washington Post. Na sua visão, a inteligência artificial é uma oportunidade de revolucionar a forma como lemos; ele a enxerga como uma forma de aprimorar e personalizar a experiência de leitura.
No início da palestra, Kaag comparou a ascensão da IA ao impacto da prensa de Gutenberg – da mesma forma como a inovação do século XV tornou os livros mais acessíveis, a inteligência artificial pode representar um novo salto na disseminação do conhecimento. Pausa para ressaltar que a grande revolução não estaria no ato de gerar novos textos, mas na capacidade de curadoria.
Ele ressaltou que já conhecemos o enorme potencial da tecnologia aplicada à personalização da leitura, criação de diálogos inteligentes e ampliação do acesso ao conhecimento (tópico que ainda tenho dúvidas!). Com o apoio da IA, plataformas de leitura assistida podem replicar a experiência de um tutor humano, oferecendo insights e contexto sobre os textos, tornando clássicos mais acessíveis e enriquecendo discussões literárias – como o abordado no artigo anterior, no qual eu trouxe fragmento da conversa com Rafael Silva, diretor de Estratégia e Tendências da Futures Unit, na Box 1824.
De um processo passivo e solitário (na maioria das vezes), o texto escrito – segundo o professor – sempre foi visto como algo morto, justamente pela incapacidade de interação com o leitor em um formato audível. Com a IA, elimina-se esse “problema” do silêncio, revertendo essa “limitação” ao permitir que obras conversem com aqueles que a acessam. Desculpem-me pelas inúmeras aspas, mas acho que elas são muito necessárias!
O outro lado da moeda é que estamos começando a perceber os desafios. Kaag nos alerta sobre os riscos da homogeneização do pensamento e do impacto dos comentários gerados pelos usuários na qualidade do debate literário. Se a leitura sempre equilibrou introspecção e deu suporte à troca de ideias, a IA adiciona uma nova camada a essa experiência, exatamente porque pode expandir horizontes ou reduzir o pensamento crítico; pode conectar leitores ou uniformizar debates; pode democratizar o conhecimento ou apenas moldá-lo sob filtros algorítmicos. E essa é uma conversa que precisamos ter!
A decisão não caberá às máquinas, mas a nós. No fim, a tecnologia não determina o futuro da leitura – essa responsabilidade é toda nossa! A grande questão é se usaremos a IA para aprofundar a relação pessoal com os livros ou permitiremos que ela nos interprete antes de iniciarmos a leitura como a conhecemos.
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