Repetir para não esquecer
'O nome dela é Luana', romance de Eberson Terra e Gustavo Nascimento, trata de temas considerados tabus na vida e na literatura, como a intolerância religiosa, o abuso sexual e a injustiça social
Estou perto de completar trinta e dois anos e, nesta semana, eu me peguei refletindo sobre quantas vezes eu precisei repetir coisas para ser ouvida, ou ainda, para que lembrassem o que eu não aceitava e como não queria ser tratada e me lembrei da leitura que fiz do romance O nome dela é Luana, vencedor do 7º Prêmio ABERST na categoria narrativa longa de crime e 2º lugar do Prêmio ARGOS 2024. Li o romance de Eberson Terra e Gustavo Nascimento e escrevi uma blurb para o livro ainda antes das premiações.
Um dos pontos que me chamou a atenção durante a leitura é que o livro repete o nome da personagem e esta frase no início dos capítulos:
O nome dela é Luana da Silva, doutor.
O nome dela é Luana da Silva. Isso mesmo, escreve normal.
O nome dela é Luana da Silva.
O nome dela é Luana da Silva, doutora.
O nome dela é Luana da Silva, anota aí.
O nome dela é Luana da Silva. Dá uma olhada nessas fotos aqui?
Na literatura, a repetição é um recurso estilístico que pode ser usado não apenas na poesia, mas também na narrativa. Aqui temos uma busca da personagem de ser ouvida, de ser vista e de que o nome de sua filha seja lembrado por diversas autoridades distintas (justiça, escola, igreja).
No livro, acompanhamos a jornada de Maria, que após perder a guarda de sua filha Luana devido a uma acusação infundada de maus tratos motivada por intolerância religiosa, se vê lutando contra um sistema que as ignoram – mãe e filha, mulheres negras e periféricas – completamente. Sem dúvidas, existem várias formas de violência e silenciamento de mulheres numa sociedade que é estruturalmente machista e, neste romance policial, essas questões são centrais.
Em meio ao desespero, Maria encontra apoio em Mirela, uma delegada que, apesar de seu passado doloroso, decide ajudá-la a encontrar Luana. Sem falar de sororidade, mas trazendo isso por meio de personagens e cenas, temos mulheres que se ajudam, ainda que não instantaneamente, porque, no fundo, há uma identificação no que se refere a esse silenciamento imposto, às dores sofridas e às cicatrizes deixadas.
Conforme a busca por Luana avança, Maria e Mirela descobrem uma rede cruel que usa a fé para acobertar muito além da intolerância religiosa, bem como na série Pecado revelados, dirigida pela cineasta premiada Susanna Lira. É uma ficção imersa na realidade e este suspense policial aborda questões complexas e ainda por discutidas na vida e na literatura, como: o racismo, a misoginia, o abuso sexual, a corrupção e a injustiça social.
Continuo a repetir que a literatura salva. Ciente de que a literatura também denuncia. Não que haja uma obrigatoriedade de nós, escritores, produzirmos uma literatura engajada, porque o objetivo de um livro de ficção é emocionar e levar o leitor a uma catarse. Mas sim, por meio das personagens, das cenas e da linguagem também é possível refletir, questionar e promover mudanças – dentro de si e consequentemente no mundo.
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