O perigo do sonho das mulheres
'Ciborgues rebeldes sonham com a morte', romance de Carol Façanha, traz uma história marcada por violências e silenciamento
Eu costumo ler histórias realistas. Mas tirei esse carnaval para me unir ao bloco da leitura e decidi me desafiar a ler obras fantásticas. Uma delas foi Ciborgues rebeldes sonham com a morte, de Carol Façanha, vencedora do Prêmio Literário Voz, romance publicado pela Editora Patuá durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2024.
A ficção científica de Carol é engenhosa e curta, muito curta, como os livros que escrevo. Ao iniciar a leitura, eu me perguntei: como criar um mundo em tão poucas páginas? A autora me surpreendeu. Não apenas pela sua capacidade de dizer tanto com poucas palavras, como também pela construção das personagens. Uma tríade de mulheres. Flávia, Lúcia e Diana.
Flávia é uma ciborgue de Ostra Luz, um dos únicos lugares a sobreviver depois do Grande Apagão. É também uma das servas pessoais mais antigas do Major. Lúcia sonha em ser a filha favorita. Na ânsia de agradar seu captor, ela inicialmente se opõe aos desejos rebeldes das outras ciborgues até se questionar onde sua lealdade pode levá-la. Diana sonha com o fogo. O incêndio que causou na frota do Major também a fez destruir o seu corpo. Todo o corpo, menos o cérebro. As três sonham com a morte.
Sonhar é o que há de mais humano. Mesmo ciborgues elas ainda sonham – ainda que um sonho fúnebre: sua própria morte. Elas desobedecem. Uma das cenas mais intrigantes é quando Flávia está no tribunal junto de seu “dono”. Ela o desobedece e conta tudo para o juiz que a escuta e sente compaixão, chamando-a de “menina”. Ela fica enojada com esse paternalismo. Como se as mulheres só tivessem dois caminhos: vilãs ou vítimas indefesas a serem salvas.
Mulheres sofrem violência no mundo atual e em 2557, o ano em que se passa a história, quando homens matam suas mulheres, conservam seus cérebros e os colocam em ciborgues. Ciborgues rebeldes, ciborgues que sonham com a morte para, enfim, encontrarem liberdade. É um livro doloroso que me fez pensar muito. Também me deixou melancólica e pensativa. A autora descortina e debate questões no que se referem à sociedade, à cultura e à política. Tudo é muito assustador. As inserções de matérias no livro do jornal Diário de Ostra Luz só evidenciam muito do que presenciamos no cenário político atual e me fez questionar: será que estamos assim tão distantes de 2557? De Ostra Luz?
Continuo a repetir que a literatura salva. Não no sentido literal, é claro. A literatura da Carol me salvou nesse feriado de Carnaval. E com certeza, por causa desta leitura tão reflexiva pretendo ler mais livros fantásticos, de ficção científica e distopias.
Afinal, a realidade muitas vezes é mais absurda do que a própria ficção. E isso não podemos negar.
Indicação do livro:
Ciborgues rebeldes sonham com a morte (Patuá), de Carol Façanha
Páginas: 84
Preço: R$ 80
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