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Miolo(s): Um chamado à ação editorial latina

01 de novembro de 2024
4 min de leitura
Miolo(s) | © Divulgação
Miolo(s) | © Divulgação

Este artigo é uma adaptação do discurso que será lido na abertura do Giro Miolo(s), que acontece nesta sexta (1º), às 19h, na Biblioteca Mário de Andrade

Mais de 300 publicadores de diferentes partes da América Latina se reúnem para compartilhar suas ideias, criações e práticas na 11ª Miolo(s), que acontece neste final de semana na Biblioteca Mário de Andrade. Em um país onde os prazos são sempre curtos, saúdo a continuidade dessa trajetória iniciada em 2014.

Miolo(s) é uma feira de arte gráfica que é também um ponto de convergência, espaço físico e temporal de conexão e de troca de experiências. É um dínamo de ideias e entusiasmo gráfico – depois da Miolo(s), dá vontade de escrever, desenhar, imprimir, costurar, criar… verbos, verbos, verbos: ação.

Miolo(s) 2023 | © Ayumi KobayashiA ação que encerra o Esquenta Miolo(s) e inicia simbolicamente a feira é o Giro Miolo(s) com apresentações de publicadores do Equador, Colômbia, Peru e Argentina, reflexo de um desejo de transpor fronteiras geopolíticas em prol da troca fluida de saberes, técnicas e perspectivas culturais, sem burocracias ou aduanas.

Quero convidar o ecossistema da publicação a almejar isso de maneira obsessiva. Os desafios enfrentados por colegas dos países vizinhos são similares, embora, claro, atravessados por contextos específicos. São vivências que enriquecem o repertório e instigam a busca de soluções conjuntas. A Miolo(s), por exemplo, tem muito a absorver da Feria de Editores de Buenos Aires e a FILBo de Bogotá; digo o mesmo da perspectiva da livraria Banca Tatuí, plataforma de ensino Sala Tatuí, editora Lote 42 e todas as iniciativas que tocamos lá na rua Barão de Tatuí.

O que nos impede? O que nos impede de agir? O Brasil é isolado e se isola de seus vizinhos. Quem descobriu… – perdão, atenção ao verbo, atenção à ação. Quem invadiu a América foi Cristóvão Colombo, já quem descobriu o Brasil foi Cabral. A razão para esse desajuste está no idioma. Nosso território engoliu o português, enquanto que nuestros vecinos, el español.

A Miolo(s) é feita pela Lote 42, gerida por uma argentina, a Cecilia Arbolave, e eu, um brasileiro. Diante de 11 edições da Miolo(s), posso afirmar que a barreira da língua é mais psicológica do que prática: o português e o espanhol compartilham mais similaridades do que diferenças, vêm da mesma raíz, são latinas. O portunhol no es un defecto; é uma virtude, um esforço de comunicação.

Transitemos pelas “puertas abiertas de América Latina“. Como Galeano nos ensinou, o nosso continente carrega uma história comum que deve ser motivo de união e orgulho. Há meios para ficarmos mais próximos. Existem 480 milhões de dispositivos digitais em ação só no Brasil, 2,2 para cada habitante, aparelhos que podem ser usados para facilitar a comunicação, tradução e o aprendizado.

Ao mesmo tempo, esse contexto tomado pelo digital nos desafia a repensar o impresso. A tecnologia coloca em xeque a própria definição de inteligência e de humanidade. É essencial fortalecer manifestações expressivas como as publicações gráficas nas suas mais variadas formas.

Do contrário, o futuro não será nem em português ou em espanhol, mas em inglês, o idioma do mercado, que quer nos colocar com um mindset passivo diante do streaming do app, uma massa colonizada, orientada a aumentar o faturamento. No ano passado, apenas uma ficção feita por uma autora brasileira esteve entre os dez livros mais vendidos, algo que já não causa espanto. Aceitamos tal fato com normalidade.

A Miolo(s) recebe os publicadores desinteressados em estar na lista de mais vendidos, guiados acima de tudo pelo desejo expressivo. O tema é o gesto por trás da impressão artesanal. A mostra À MÃO, que organizamos junto com Gustavo Piqueira e erguemos com os trabalhos dos próprios expositores, ocupa a Hemeroteca Mário de Andrade durante a Miolo(s) para celebrar as técnicas artesanais de reprodução. A ação de materializar o pensamento criativo, com o método integrando a expressividade, reforça a autonomia dos publicadores sobre os meios de produção. E para nós, latinos, a autonomia é algo que compreendemos e buscamos incansavelmente.

A Miolo(s) é isso, um mosaico que toca a formação, crítica e diálogo; é construção coletiva. Nos próximos dois dias, teremos aqui nesta biblioteca a maior feira Miolo(s), uma rede de apoio, de amizade, de parceria, de camaradagem. Ação e esperança. Agradeço por fazerem parte dessa história.

Leia o discurso do Giro Miolo(s) de 2023


*João Varella é um dos fundadores da editora Lote 42 (2012), livraria Banca Tatuí (2014), escola de edição Sala Tatuí e da Miolo(s). Jornalista, colaborou com reportagens para diversos veículos. Escreveu, entre outros, os livros ‘Me tirar da solidão’ (Barbante, 2022), ‘Videogame pandemia’ (Elefante, 2021) e ‘Videogame, a evolução da arte’ (Lote 42, 2020).

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Talita Facchini

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