Um registro antropológico e político
Em 'Oração. Carta a Vicki e outras elegias políticas', María Moreno faz releitura de obra de Rodolfo Walsh dedicada à filha, morta pela ditadura cívico-militar argentina
Embora considerada uma das maiores jornalistas e escritoras da Argentina, a obra de María Moreno é pouco conhecida no Brasil. A ditadura cívico-militar argentina (1976-1983), a repressão e a resistência são de extrema relevância para entender certos aspectos da política recente do Brasil, bem como da própria Argentina. Oração. Carta a Vicki e outras elegias políticas (Manjuba, 328 pp, R$ 84 – Trad.: Sergio Molina) se destaca pela sua estrutura, ao tomar como objeto central a vida e a morte de Vicki Walsh com base no famoso par de cartas que seu pai, Rodolfo, dedicou à filha, também integrante dos Montoneros. María Moreno investiga o que os textos expressam, o que dizem e o que não dizem, e então tece uma rede de histórias que se desdobram em diversas frentes, reunindo ensaio literário, investigação jornalística, relato histórico e autobiográfico, e uma espécie de registro antropológico e político que recorta e recompõe diversas camadas de sentido. Decorridos quase 50 anos do golpe cívico-militar na Argentina e o retorno daquele país à democracia, este livro também serve como um alerta em função das mais recentes medidas tomadas pelo atual governo argentino.
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