Em meu irmão vi o meu eu passado: Um panorama dos primeiros dias da Feira do Livro de Havana
As ruas foram tomadas por um público leitor majoritariamente jovem que me deu esperança de um futuro urgente
Inicialmente, este é um texto 100% passional, atravessado por diversos fatores. É o meu primeiro texto para o PublishNews sobre a primeira viagem internacional que fiz na vida, então, talvez, não consiga ter o distanciamento que se pede para fazer uma análise sobre um país da importância de Cuba e como foi impactante a presença do Brasil como convidado de honra da 32ª Feira do Livro de Havana.
Este evento movimentou a capital do país mais (mal)falado pela direita nos últimos anos de gestão do inelegível. A resposta de qualquer denúncia feita sobre o governo genocida era respondida por pessoas com bandeiras brasileiras em seus perfis em redes sociais com um “vai para Cuba” em letras maiúsculas.
Pois bem, fomos.
A delegação brasileira convocada para representar o Brasil na feira – que teve seu evento principal no Parque Histórico Militar Morro-Cabaña, o maior forte construído nas Américas, e diversas ações por aparelhos culturais distribuídos por Havana – contou com um time de peso para acompanhar a Ministra da Cultura, Sra. Margareth Menezes e o Secretário de Formação, Livro e Leitura, Fabiano Piúba: Ailton Krenak, Conceição Evaristo, Eliana Alves Cruz, Elisa Lucinda, Emicida, Frei Betto, Jarid Arraes, Jeferson Tenório, Márcia Kambeba, Cidinha da Silva, Graça Graúna, Otávio Júnior, Socorro Acioly e Patricia Melo.
Ainda por iniciativa junto à Embaixada do Brasil e Havana, o projeto Brasil em Quadrinhos também levou para o evento, exposições de páginas e exemplares em espanhol de obras brasileiras de grandes artistas, representados pelos presentes Marcelo D’Salete, Luiza de Luiza de Souza, Gidalti Jr, Alcimar Frazão, Sirlene Barbosa e João Pinheiro.
Vale também o registro da presença do escritor Jamil Chade, da escritora Juliana Monteiro e deste autor/artista que escreve cheio de emoção este relato.
Se alguém dissesse ao Estevão adolescente da periferia da Serra/ES, chamado de “Steban” pelos amigos em referência à novela Kubanacan, que ele um dia estaria em Cuba, ele riria incrédulo.
Ao Estevão de 44 anos a honra de participar da programação da Feira, mediando uma mesa chamada “Quadrinhos de Norte ao Sul”, ao lado da quadrinhista Luiza Souza, que atende na internet como @ilustralu, e do quadrinhista belorizontino Gidalti Jr, que cresceu no Pará e hoje mora em São Paulo.
Dividido em duas “levas” de autores e autoras, tive a honra de acompanhar a primeira delegação e ver a inauguração dos dois pavilhões do Brasil, que abrigava a exposição Brasil em Quadrinhos e um mostruário de títulos de autoria brasileira em espanhol. O governo brasileiro comprou nada menos do que 6 mil cópias de obras traduzidas para distribuição pelos aparelhos culturais da ilha.
Aliás, Cuba é um país de leitores. As ruas do forte foram tomadas por um público leitor majoritariamente jovem que me deu esperança de um futuro urgente. Mesas como as de Conceição Evaristo com Eliana Alves Cruz e Marcelo D’Salete, a dobradinha Conceição e Emicida e ações como a de Elisa Lucinda na Casa da Poesia em Havana Vieja mostram uma cidade pulsante, ainda sofrendo os reflexos do embargo dos Estados Unidos, mas viva.
Aí é que entra o Estevão adolescente, talvez um pouco mais do Estevão criança. Ver as dificuldades da população mais pobre de ter acesso a produtos industrializados básicos me joga para a minha infância, onde o sonho de comer algo diferente do arroz e feijão e ovo era distante. Um biscoito recheado, uma batata chips, coisas que não se encaixavam nas prioridades da minha adolescência.
Mas o Brasil do passado me veio também nas crianças nas praças até às nove da noite, nos adultos que trabalham pelas praças cuidando e as orientando sobre a hora de ir para casa.
Cuba tem um povo consciente, culto, conhecedor de seus hermanos latinos e me dá uma vergonha em ver o quão pouco conhecemos da América Latina como um todo.
A 32ª Feira do Livro de Havana (FILH 2024) ocorreu de 15 a 25 de fevereiro.
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