Vidas subjugadas
'A queda do Imã', romance da feminista egípcia Nawal El-Saadawi, retrata os efeitos do fundamentalismo religioso na vida de mulheres e crianças
A queda do Imã (Tabla, 200 pp, R$ 68 – Trad.: Safa Jubran), romance de Nawal El-Saadawi (1931-2021), escritora egípcia, médica psiquiatra e ativista feminista, começa com a seguinte cena: em uma noite escura, uma menina é perseguida enquanto procura por sua mãe, até que algo lhe atinge pelas costas. A menina — cujo nome é Bint-Allah, que significa “filha de Deus” — cai no chão e pergunta aos seus perseguidores: “Por que vocês sempre deixam o criminoso livre e matam a vítima?”. Refletindo sobre assuntos universais, ainda que exemplificados no contexto árabe, este potente e poético romance é um grito de guerra contra aqueles que usam a religião como arma para subjugar as mulheres. Para além das questões temáticas, A queda do Imã se destaca também pelo seu caráter experimental ao trazer uma escrita ousada e de certa forma fragmentada, trabalhando uma narrativa elíptica e poética, às vezes em primeira pessoa, às vezes em terceira, que dá vertiginosos saltos e apresenta repetições que incessantemente rearticulam perspectivas. Ao longo da obra, El-Saadawi parece denunciar que, diante do poder fundamentalista das religiões, todas as formas de vida são subjugadas.
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