O que comemorar no Dia Nacional da Leitura?
Zoara Failla, coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, fala da data comemorada no dia 12 de outubro, sobre as diversas formas de leitura, sua importância e poder transformador
Infelizmente, se nossa lente revela que metade dos brasileiros (48%) não são leitores, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, temos pouco a comemorar. Se buscarmos quem são leitores de literatura, em livros, o resultado é, ainda, mais desanimador: somente 18% dos brasileiros declararam ter lido algum livro de literatura em um período de três meses.
Mas alguns preferem usar “outras lentes” para ver esse “retrato” e dizem que nunca se leu tanto na internet e nas redes sociais. É verdade! Se vamos comemorar qualquer leitura, Ok! Nunca se leu, e se escreveu, tanto.
Mas ler não é somente decodificar palavras ou mensagens. Toda leitura desenvolve o hábito de ler e a competência leitora. Leitura de livros, gibis, jornais ou revistas, leitura na internet, não importa o conteúdo, o meio ou o suporte, o simples ato da leitura é uma das oportunidades mais democráticas e acessíveis de acesso à informação, ao conhecimento e à ficção e possibilita o desenvolvimento de habilidades linguísticas e de análise e crítica dos conteúdos lidos. É por meio da leitura que, de forma autônoma, aprendemos e acessamos todo o conhecimento produzido pela humanidade.
Mas qual leitura vamos comemorar neste dia?
Aquela que acontece nas redes sociais e que nos possibilita a comunicação e o compartilhamento de ideias, ou, aquela leitura que nos desvenda o mundo, nos transforma em cidadãos críticos e possibilita acessar a maior parte do conhecimento acumulado pela humanidade?
Vamos comemorar a leitura que nos transforma.
Ler literatura é desvendar um mundo contado, sentido por outro, ou outros. Vivenciar as emoções e experiências narradas por um outro desperta empatia e emoções que não vivemos. Descobrimos o que é se sentir velho antes de ser velho; sentir fome, medo, discriminação, perdas ou vitorias… Nos prepara para viver o que ainda não vivenciamos.
A leitura de literatura, ao nos repassar um conhecimento, experiência ou fantasia narrada por outro, por meio da escrita, age como mediadora e nos aproxima desse outro, do seu olhar, das suas ideias, das suas emoções. Além do aprendizado e da construção de conhecimento, desperta a compreensão e a empatia. A leitura, nesse sentido, nos humaniza ao possibilitar perspectivas de compreensão de nós mesmos, de outras culturas, valores, mundos e experiências. Nos ajuda a agir de maneira mais cidadã, a respeitar as diferenças e a pensar de maneira mais coletiva.
Sim! Nunca foi tão importante comemorar a leitura que nos humaniza e nos liberta de manipulações. A leitura possibilita desvendar verdades, nos informar e construir novos conhecimentos. A leitura nos transforma em protagonistas de nossas vidas e sujeitos da transformação social.
Mas quase 50% dos brasileiros não são leitores e somente 18% são leitores de literatura.
Talvez, neste dia, devemos clamar por políticas públicas que garantam o direito à leitura a todos os brasileiros. Que garantam a alfabetização funcional e a compreensão leitora, pois sem essas habilidades, dois em cada quatro brasileiros não irão compreender o que leem. Políticas públicas que garantam a formação leitora e o gosto pela literatura a todos os estudantes do ensino básico. A formação de professores leitores e o acesso aos livros, com a universalização das bibliotecas escolares.
* Zoara Failla é coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Socióloga pela UNESP, com mestrado em psicologia social na PUC-SP e pós-graduação pela FGV-SP. Foi consultora do PNUD e coordenou o Programa de Melhorias do Ensino Médio/SEE-SP; consultora em projeto de formação nos 5 PALOPS; entre outras atividades na área. Desde 2006, responde pela área de projetos do Instituto Pró-Livro e já coordenou vários projetos da instituição, dentre eles: O Programa Mais Livro e Mais Leitura, em parceria com o MINC; a Plataforma Pró-Livro e as três edições do Prêmio IPL – Retratos da Leitura. Coordenou, também, as cinco últimas edições da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, e é autora de vários artigos sobre comportamento leitor do brasileiro.
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