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A utopia da leitura

21 de julho de 2022
2 min de leitura
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Em nova coluna, Paulo Tedesco propõe a discussão sobre como a tecnologia e as novas possibilidades de acesso podem ter impactado os 40% de redução do mercado editorial no Brasil

Posso colocar na conta dos estudos envelhecidos a descoberta que me fez ver tudo de outra forma, ainda que numa época distante de bancos escolares e seus acalorados debates teóricos. Acalorados, mas produtivos, por certo.

No sistema econômico em que vivemos, o capitalismo, há a destruição permanente dos meios de produção por outros sistemas produtivos, sempre na busca dos lucros e da velocidade do acúmulo. O que, para mim, finalmente explica por que abandonamos quase por completo o transporte de trens pela opção por rodovias e veículos à combustão.

O curioso é que a chegada massiva do veículo elétrico é o que me fez buscar respostas. Pois, claro está, se houve essa canibalização dos trens pelos automóveis no Brasil, caminhamos para o mesmo fenômeno com os motores. Passamos da combustão para o elétrico, e da compra do veículo em longas prestações para a locação de sua bateria mediante um singelo pagamento por sua estrutura.

E nesse embalo entra o livro. Nossa combalida economia da cultura num país jogado às traças por um governo, ou por governos neoliberais e focados em outros interesses, fez do mundo do livro um caso curioso. Afinal, a exemplo dos carros elétricos, a tecnologia e as novas formas de acesso ao conteúdo vêm canibalizando a leitura e a venda do livro. Provam os quase 40% de queda no mercado, informado aqui mesmo no PublishNews.

Se minha descoberta estiver correta, nosso sistema econômico relegará livros e bibliotecas a museus virtuais, e bateremos cabeça sobre como ler sem energia e sem aparelhos leitores sofisticados. O uso de leitores de segunda mão restará aos países e povos empobrecidos, dependentes das redes digitais e dos computadores dos ricos. E toda nossa cultura, toda a preservação da nossa cultura dependerá de conglomerados financeiros sem pátria nem maiores simpatias por periferias.

É distópico o que escrevo? Sem bases reais? Tomara. O milênio ainda nos aguarda em muitas surpresas. E eu resisto na utopia, mesmo escrevendo sobre seu oposto.

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Paulo Tedesco
Paulo Tedesco

Paulo Tedesco é escritor, editor e consultor em projetos editoriais. Desenvolveu o primeiro curso em EAD de Processos Editorais na PUCRS. Coordena o www.editoraconsultoreditorial.c...

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