O retrato da voz
Em novo artigo, Gustavo Martins de Almeida fala sobre um recurso atrativo para o crescente mercado do áudio
Não é novidade a constatação de uma das grandes descobertas do futuro ser a redescoberta do passado.
Os livros em áudio começaram basicamente em gravações feitas em fitas cassete, para pessoas deficientes visuais ou para aprendizado de línguas, com a possibilidade de se ouvir a pronúncia de outro idioma. Antes disso, disquinhos coloridos tocavam histórias infantis.
Hoje, a utilização de voz nas máquinas vem crescendo enormemente e abrange não só os livros, como manuais técnicos, aparelhos de localização geográfica, comando de assistentes caseiros etc.
No estágio atual, o padrão exposto nos contratos de direito autoral para a edição de audiobooks tem sido o de estipular a narrativa linear do texto, em uma só voz, sem emoção. Como já disse numa coluna anterior (A voz do livro, o livro da voz | PublishNews), tudo indica que a narrativa emocional tipo “rádio novela” ocupará seu espaço.
Mas outro ponto surge – que somente o audiobook comporta – o de permitir a quem escreva biografias, baseadas em entrevistas feitas com o biografado, “transcrever” a voz registrada na gravação original, como citação auditiva.
Assim, é possível que o audiobook conte determinada passagem a respeito de um biografado, ou de um personagem, e esta seja complementada por uma citação em áudio original do protagonista.
O livro fica mais atrativo com o realismo sonoro, decorrente da presença vocal do biografado, ou da pessoa em torno da qual gira o enredo do livro.
Um registro histórico curioso: pode-se recriar o perfume de Cleópatra, com base nos textos e fórmulas descritivos da época, pode-se refazer a receita de pratos de Brillat Savarin, é possível executar-se uma sinfonia de Mozart, com base na partitura encontrada, ou apreciar-se um quadro retratando determinado personagem histórico.
No entanto, somente a partir do registro sonoro de Graham Bell, Thomas Edson e outros, em máquina com agulha e cilindro de cera, é que pôde ser ouvida a voz registrada de personagens.
Como teria sido um grito de Independência ou Morte, ou o tom usado no alea jacta est, ou ainda o timbre sonoro de personagem que pronunciou discurso histórico? Isso não se saberá.
Com o audiobook ganha destaque o recurso de perpetuar a voz do biografado na própria biografia. Já mencionei aqui também (Papel, tela, fone de ouvido | PublishNews) o impressionante fenômeno da verbalização do discurso que John Kennedy pronunciaria em 23/11/1963, data em que foi assassinado em Dallas. O texto datilografado do discurso foi inserido em computador previamente alimentado com a voz e entonações do Presidente, em outros discursos gravados, e a máquina sonorizou o texto seco.
Indispensável a repercussão desses fatos na área jurídica, já que as editoras deverão receber do biografado não só autorização para divulgar dados sobre a sua vida, mas também licença para uso de sua voz, com ou sem exclusividade, na publicação do audiobook.
É mais um recurso atrativo para o crescente mercado desse tipo de livros, que vai aos poucos ganhando espaço no público ouvinte, principalmente na faixa jovem.
Do mesmo modo que a fotografia ilustra o texto escrito, a citação, a transcrição de trecho com voz original realça a narrativa, dá outro patamar sonoro, é um “retrato auditivo”.
Identificar um livro pela voz do biografado ou poder ouvir um trecho do audiobook numa loja de venda de produtos audiovisuais é uma nova frente que se abre para os mercados editorial e publicitário, e ainda encosta no aspecto histórico do registro do timbre de voz do personagens retratados em livros.
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