Antonio Candido ou uma vocação para a dignidade
Em novo artigo para a sua coluna 'Escrever para lembrar: que os grandes escritores me ensinaram', Suzana Vargas se lembra das suas histórias com Antonio Candido
Uma carta: foi uma carta que me colocou em contato mais próximo com Antonio Candido, muito depois de conhecê-lo através dos livros. Com minha formação em Letras, era natural (senão essencial) que em minhas consultas e estudos acadêmicos me deparasse com sua Formação da literatura brasileira em dois grossos volumes. Natural e necessário que consultasse seus livros sempre que escrevia sobre literatura ou quando preparava minhas aulas na universidade. Mas, essas seriam palavras ao vento ou de ocasião, não fosse o modo como tive a alegria de conhecê-lo pessoalmente.
Como então o encontro aconteceu? Era o ano de 1995, eu trabalhava na Fundação Biblioteca Nacional, editando uma revista, mas atuando também no setor de projetos culturais. Coube a mim a tarefa de contatá-lo a propósito de uma exposição sobre sua vida e obra que a FBN tencionava organizar, numa homenagem devida “a quem tanto contribuiu para as Letras nacionais”. Essas foram as palavras com as quais eu terminara a carta que lhe enviei sobre a mais do que justa homenagem.
A correspondência tinha a intenção não somente de comunicar sobre a exposição, mas de convidá-lo a vir ao Rio por ocasião da inauguração. Da minha parte, sentia grande responsabilidade pela incumbência do contato pois nunca havia organizado ou curado exposições e encarava tudo isso como uma verdadeira missão, no caso dele, muito especial.
A resposta a meu/nosso convite não tardou muito e chegou embalada numa letra miúda, caprichosamente desenhada, como só uma determinada geração de escritores teve a sorte de possuir. E Antonio Candido certamente pertencia a ela. Começava tratando-me por Dona Suzana, como aliás continuou fazendo mesmo depois de nos avistarmos pessoalmente.
Da minha parte – para além da Formação – era sua leitora dedicada, havia estudado muitos de seus livros e raramente o tinha visto na televisão. Os raros vídeos (YouTube e podcasts não existiam naquela época) que tive a oportunidade de assistir com ele me apresentavam um homem magro, calvo, algum bigode, olhos azuis, expressão serena, mesmo gentil, com palavras sempre simples e precisas quando necessitava explicar algum fenômeno literário ou não. Seus comentários críticos iluminavam caminhos bem diversos para a literatura que ele traduzia de modo sensibilíssimo e objetivo. Alçava os textos literários a voos interpretativos muito mais amplos num tempo, ainda, de amargos e alienantes estruturalismos.
Por tudo isso eu sabia que a carta que tinha em mãos, não era uma missiva qualquer. Mas quando abri, foi enorme a minha surpresa ao me deparar com a recusa mais elegante que eu havia recebido em todo tempo de trabalho no setor de projetos culturais. Na verdade, não estava preparada, nem a direção da FBN, creio, para uma recusa. Eu já tinha iniciado uma pesquisa diligente para a exposição no vasto acervo da Casa e encontrado algumas primeiras edições de livros preciosos, como O observador literário, de 1959, um exemplar inaugural de Tese e antítese, alguns de seus primeiros escritos para a imprensa (em 1956, ele idealizou o Suplemento Literário do Estado de São Paulo junto com Paulo Emílio Salles Gomes), bem como fotos, artigos soltos, ensaios. Esses elementos e muitos mais iriam compor o vasto mosaico de trabalhos prestados à nossa literatura por Antonio Candido.


Li e reli sua recusa por vários motivos que já veremos. Estava certa de seu acolhimento e aceitação. No meu autocentramento e (talvez) ingenuidade juvenis, achava que ter uma homenagem da magnitude pretendida deveria ser algo irrecusável, na medida em que se tivesse certeza do merecimento. E esse era indubitavelmente o caso do Mestre. Mas, ele gentilmente declinou da honraria logo no primeiro parágrafo, dizendo que “há exagero generoso, mas excessivo nas avaliações a meu respeito e todas as vezes que elas se concretizam em homenagens fico constrangido, pois não tenho vocação para a notoriedade”. Essas suas palavras.
Do “alto” dos meus 40 anos à época, e com alguma infantil pretensão de notoriedade, pareceu-me incrível que pessoas como ele fossem tão lúcidas e modestas. Mais adiante percebi, ou me disseram, que se tivesse convivido com o professor por algum tempo, talvez sua recusa não me espantasse tanto. Segundo soube, ele era mestre também em driblar situações como aquela. Seria muito mais fácil convidá-lo a dar uma aula gratuita e improvisada para estudantes. Homenagens não estavam no seu programa de vida, mas, sim, trabalho. O puro trabalho feito com honestidade e alegria.
E como reagi? Senti, num primeiro momento, como se tivesse fracassado na minha missão, ao mesmo tempo em que reconhecia o quanto de honradez e verdade aquele gesto encerrava. Tempos depois, convivendo com algumas personalidades artísticas pude avaliar melhor o acontecimento e descobri, diante de tantas manifestações egóicas que – se nosso trabalho tem algum mérito – esse mérito está diretamente relacionado a seus resultados, não a seu reconhecimento, seja em que nível for. Uma descoberta e tanto. Tratava-se mais de uma questão ética ou moral?, eu me perguntava, intrigada. Lembrei de D. Quixote, meu clássico preferido, e de algumas observações cruciais que W. H. Auden faz ao referir-se às questões éticas ou morais do trabalho artístico, utilizando o romance de Cervantes como exemplo. Diz ele a certa altura de seu ensaio A mão do Artista: “ A rigor, Quixote não almeja a fama por si só; almeja realizar um feito que faça jus à fama. Os resultados têm para ele uma importância secundária e se entrarem em conflito com sua vocação, não precisam ser sacrificados.” As palavras de Auden sobre o Cavaleiro da Triste Figura reconciliaram meu ser com a recusa do Mestre e encontravam explicação no campo da coerência com uma vida vocacionada ao trabalho. Daí sua “ falta de vocação para a notoriedade.”
Nossa história, no entanto, não terminaria aí pois sua breve carta se estendia além das suas justificativas e as palavras que seguiram têm a ver com nosso futuro contato pessoal. Explico: ele havia lido por aquela época uma resenha que eu escrevera sobre o romance Mina R, de Roberto Mello e Souza, seu irmão, e que fora publicada no Caderno Ideias do Jornal do Brasil. No corpo da carta manifestou desejo de me conhecer pessoalmente e pedia meu endereço para me enviar seu último livro. Claro está que não deixei a oportunidade passar e combinamos um encontro numa de suas vindas ao Rio, visitar sua filha que morava no Jardim Botânico.
E assim nos avistamos. Lembro-me que, no primeiro encontro, eu não sabia bem o que conversar com aquele gigante das letras, premiado tantas vezes nacional e internacionalmente, cuja obra crítica era e é essencial em qualquer debate literário. Mas, venci minha insegurança e compareci à sua casa numa tarde chuvosa.
Encontrei-o muito mais alto, magro e afável do que supunha, junto à Dona Gilda Melo e Souza, sua brilhante companheira de vida e de ofício. Conversamos trivialidades, inicialmente, depois falamos sobre alguns assuntos literários do momento e questões políticas também (afinal, eu estava na frente de um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e de um dos maiores defensores da nossa democracia). Falamos também rapidamente sobre a exposição abortada e ele me confessou que realmente era avesso a homenagens. “O importante, Dona Suzana, é ir fazendo as coisas e que o resultado seja bom para todos. Mas fiquei vaidosamente agradecido, a senhora pode crer”. Simples assim.
Em mais duas ocasiões estivemos juntos em São Paulo. Pensei em chamá-lo para inaugurar meu projeto das Rodas de Leitura que estreava no CCBB de lá, mas desisti. E mais uma vez surgiu Auden em meu socorro:
“Em sua condição mais valiosa, o homem público é aquele que se dedica a um objetivo social, à política, à ciência, à indústria, à arte etc. O objetivo localiza-se fora de si, mas a escolha do objetivo é determinada pelos talentos específicos com que a natureza o dotou e a prova de que escolheu acertadamente é o próprio sucesso terreno”
Eis.
* Reproduzo, para ilustrar essa matéria, a primeira parte de um ensaio magistral sobre Grande Sertão que está em Tese e Antítese (ainda publicado pela Cia Editora Nacional)








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