Na luta contra a gravidade
Em seu artigo, Paulo Tedesco discorre sobre a importância de bons profissionais do livro para obras autopublicadas
Foi numa conversa com um autor, quando trabalhava longamente no seu livro de crônicas de viagem, feito luz de farol no “mar das ideias”, que me ocorreu: um título é espécie de farol, pois mostra ao leitor mais do que o autor pensa estar mostrando, e ao leitor o que ele mesmo pensa estar lendo. Talvez soe clichê, não sei, porém puxou uma curiosa linha neste labirinto de pensamentos sobre o mundo editorial.
Sistemas como os da Amazon, Bibliomundi, Hotmart e outros tantos, que se somam às várias editoras a oferecer serviços de autopublicação, e ao fato de muitos considerarem o formato PDF como livro (algo bem discutível), estão provocando espécie de onda tsunâmica (palavra da moda e boa de escrever), a devastar e não menos confundir, o mundo da leitura e do conhecimento.
Pois para todos esses parece muito fazer falta um editor, e como. Faz falta aprender a ajudar o inadvertido autor que sobe, imediatamente, um e-book à venda e ao público, ou se utiliza da impressão por demanda, sem ter qualquer mediação de um editor ou de um terceiro, pouco mais conhecedor dos meandros editoriais. E como prova, basta um olhar nas capas e títulos autopublicados, quanta coisa boa desperdiçada.
Pode-se alegar que o autor se esmerou, revisou inúmeras vezes, e o que temos autopublicado é ainda a matéria primeira, como bem observa a crítica genética literária (recomendo estudos no assunto, é bárbaro) sobre os manuscritos de autores reconhecidos. Mas retrabalho por retrabalho, não basta. Retrabalho com criatividade e substancialmente em direção ao leitor é indispensável e exclusivo do mundo do livro. Aliás, Charles Kiefer, grande professor e muito bom escritor, certa vez nos repassou um mantra: devemos escrever e publicar o melhor possível para que a lei da gravidade não vença, ou seja, um texto ou livro mal escrito e mal editado, sim derruba o livro da mão do leitor.
E impressiona a quantidade de boas ideias atiradas ao lixo até em órgãos da imprensa comercial e da oficial, que, em tese, deveria ter revisores e copidesques ativos. Certo, a precarização do trabalho jornalístico e a pressa do digital vem gerando esse tipo de coisa. Mas, raios, porque não aprendemos ainda nas escolas primárias a importância de um editor e um copidesque, de um revisor crítico? Porque, novamente, raios, achamos que muitos dos grandes títulos de livros de literatura foram criados somente pelo autor do livro? E quem disse que o escritor de qualquer assunto saiu a escrever e publicar sem cometer absurdos contra a língua, e muito depois foi endireitar com a ajuda de editores e outros autores?
Perdoe, fui longe. Não era a intenção. O objetivo era nada mais do que falar do título como farol da leitura e da opinião de um editor sobre um texto, para quem anda às voltas com seus livros em criação. Um título precisa iluminar ou até guiar o leitor mais desatento, e, com frequência, esse título é melhor dado por uma leitura externa. Logo, se mesmo excelentes criadores nem sempre, ou raramente, acertam em seus melhores títulos, porque insistimos acreditar pia e exclusivamente em nós mesmos?
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