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O livro do ano e a primeira lei de Newton

12 de novembro de 2018
3 min de leitura
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Em seu artigo, Gurbanov fala sobre a obra escolhida pelo Prêmio Jabuti como Livro do Ano e que o mercado do livro precisa urgente aprimorar sua gestão 'para sair desse estado de inércia'

Pela primeira vez em 60 anos de história do Prêmio Jabuti, o livro do ano foi para uma publicação independente.

O fato que poderia ser apenas uma curiosidade estatística, com uma dose de reflexão transforma-se num sinal dos tempos.
Recapitulemos.

Os jurados devidamente auditados do maior prêmio literário do país, organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), entidade de classe que representa e defende os interesses do conjunto das empresas do mercado editorial, entrega em 2018 seu maior e mais emblemático prêmio a um livro sem editora, ou melhor ainda, a um autor que diante das dificuldades para conseguir quem banque sua obra, fez quase que artesanalmente um livro de poesia no interior do estado do Ceará, pagou sua inscrição e agora levanta uma taça de R$ 100 mil.

No olho do furacão e no meio da caatinga eis que surge como quem não quer nada Mailson Furtado, um artesão da palavra, do miolo e até da capa. Um faz tudo que por absoluta necessidade e vocação, publica seu livro autofinanciado.

A cadeia de pagamentos do setor produtivo do livro vive sua tempestade perfeita ao ter de lidar com a interrupção do fluxo das obrigações financeiras por parte das duas principais redes de varejo que arrastam centenas de fornecedores em direção à seca e a inanição.

Pois bem, chegamos no ponto G. G de gestão, que fique claro.

O mercado editorial não pode mais carregar uma mochila cheia de estoques improdutivos, consignações mal administradas, dívidas financeiras, pressão fiscal, especulação imobiliária e custos administrativos insuportáveis.

Os editores em particular, se encontram diante de uma situação que os obriga a postergar lançamentos, diminuir tiragens e limitar a possibilidade de fazer suas apostas em novos talentos.

As livrarias repaginam seus espaços físicos e em paralelo procuram ar fresco nos marketplaces visando a venda online.

Os autores independentes pedem passagem e se as editoras não conseguem administrar a enorme quantidade de originais recebidos para análise, irão presenciar nas visitas às livrarias físicas e virtuais, um desfile de obras autopublicadas a cada dia ocupando mais e mais espaço.

As novas tecnologias abriram a possibilidade para que todo mundo que tiver seus neurônios em ordem possa virar fotógrafo, jornalista, escritor, cineasta, formador de opinião e por aí vai, mas nem por isso os profissionais deixam de fazer a diferença na hora H da sobrevivência do sistema.

Sistema, aliás, que com certeza após a surpreendente premiação se encarregará de incorporar o jovem talento ao seu modelo de negócio.

A primeira lei de Newton diz que “todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele”.

O mercado do livro precisa imperiosamente aprimorar a sua gestão para sair desse estado de inércia.

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Bernardo Gurbanov
Bernardo Gurbanov

Bernardo Gurbanov é presidente da Associação Nacional de Livrarias (ANL) e proprietário da Editora Letraviva. Para conhecer mais sobre sua história livreira e de vida, leia aqui me...

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