Futuro dos leitores, leitores do futuro
Em sua coluna, Henrique Rodrigues observa o que as novas gerações ensinam sobre o mundo e os livros
Quando eu era criança, ficava um pouco assustado quando os adultos me viam estudando em casa, ou mesmo na rua com o uniforme da escola, e diziam: “olhaí, esse é o futuro do país”. Era algo pesado demais para a nossa galerinha, cuja maior preocupação era tirar uma nota decente e passar de ano. Ao entrar na adolescência, imaginava que essas mesmas pessoas haviam recebido comentários similares quando mais jovens, e questionava por que, tendo crescido, eles jogavam a responsabilidade para os próximos da fila. Hoje entendo que é o ciclo natural da esperança.
Por esses dias aprendi muito com jovens, que têm cada vez mais a nos ensinar, em vários aspectos. Circulou um vídeo (abaixo) de uma entrevista com o Gustavo Gomes Silva dos Santos, de 10 anos, após uma sessão de narração de contos africanos no projeto “Leituraço”, promovido nas escolas de São Paulo. Foi espantosa a síntese e as associações que o menino fez das histórias com suas próprias raízes africanas, o atual momento político e o respeito ao próximo. Em suma, o vídeo, de 2014 mas parece feito para hoje, é um tipo de realização do resultado ideal para todos que trabalham com formação de leitores.
Outra situação aconteceu em Itaperuna, durante a primeira edição da festa literária da cidade no norte fluminense. Dividi uma mesa com duas escritoras, em que falávamos para diversas turmas de jovens. Nesses eventos, a timidez inicial da plateia vai gradativamente cedendo espaço para a curiosidade, até se transformar numa grande troca de ideias. Em dado momento, a pergunta de uma menina que devia ter uns 17 anos: “Como influenciar o próximo positivamente sem ser chato ou agressivo?” É de uma lucidez para deixar envergonhados os milhares de militantes belicosos de redes sociais.
Não é de hoje que essa chamada geração Z, ou millennials – ou qualquer outra definição “powerpôintica” – vêm quebrando várias expectativas sobre seu comportamento e visão de mundo. Especificamente na área dos livros, lembro-me bem de quando, lá por 1997, quando estava na faculdade e os adventos digitais começavam a se popularizar, surgia o alerta apocalíptico: “essa tal internet vai acabar com os livros”. E quem nascia naquela época se tornou o grupo que hoje vai às bienais com malas, cria seus próprios canais de discussão sobre livros, torna-se booktuber (que até assusta os profissionais mais velhos, que há pouco davam todas as cartas no mundo editorial), e lê mais que outras faixas etárias aqueles mesmos volumes impressos e pesados da qual os jovens das gerações anteriores tinham horror. E uma característica interessante nesse processo é que eles leem sem fazer a distinção preconceituosa segundo a qual “esse aqui é um livro de qualidade estética, e agora estou absorvendo pura arte” versus “isso aqui é um produto raso de entretenimento fruto do deus-mercado”. Meu moleque de 16 anos leu espontaneamente nesses meses Jorge Amado, Kafka e um romance num feiticeiro, o Witcher – tudo sem rotular e, o melhor, sem ser rotulado. Como diz o flanelinha, deixa solto, dotô.
E esse cenário pode ser observado em todo o país. Coordenamos um circuito literário nacional do Sesc, o Arte da Palavra, que leva escritores, contadores de histórias, rappers, cordelistas e oficineiros de um canto a outro, e a recepção dos jovens tem sido muito acima do esperado. Segundo nossos acompanhamentos internos, além do próprio relato dos artistas envolvidos, a galera tem abraçado muito a possibilidade de dialogar sobre literatura. Num desses depoimentos, há ainda a ciência dessa troca, como na fala de uma garota do Crato/Ceará dirigida à dupla Melanie Peter e Daniel Galera: “Não adianta vocês serem escritores e estarem trancados dentro de um quarto enlouquecidos com o livro, vocês precisam desses momentos. A partir daqui vão sair com mais ideias, e vocês vão ter o toque: ‘Poxa, a minha escrita tocou uma pessoa de forma diferente’.” Ainda que o processo de escrita seja em si uma experiência solitária, a jovem entendeu que o processo literário é uma via de mão dupla.
Por falar em via, vamos às ruas. Ontem, voltando para casa, dei um livro para o garoto que pede dinheiro no sinal. Carrego sempre livros para crianças e jovens no carro, e descobri que felizmente muitos colegas da área estão fazendo o mesmo. Acostumados às negativas dos vidros fechados, os moleques se surpreendem quando recebem o livro: quase sempre correm para calçada e começam a folhear os volumes. Outro dia o garoto desandou a pular e dançar, feito um sátiro, revelando como o objeto cultural mais importante e acessível precisa fazer parte da vida dessa galera – ajudando-os, se os governos fizerem o seu dever básico e cumprirem a lei, a sair das ruas.
E vamos em frente. Como disse o saudoso Millôr, cuja visão de mundo faz muita falta hoje em dia: “O futuro chega com tal rapidez que começo a desconfiar que agora já está atrás de mim”. Mais do que nunca, precisamos ouvir e entender um pouco mais as novas gerações. Se há não muito tempo o adolescente era só um meio termos entre a criança e o adulto, sem direito a dar um pio, a situação está bem diferente. Em 2013 foi sancionado o Estatuto da Juventude, que garante os diversos deveres em relação a esse público.
Mas em vez de citar lei, prefiro encerrar com uma frase do pequeno grande Gustavo, cujo depoimento nos diz e nos orienta tanto: “Ninguém pode viver isolado, todo mundo tem que estar num conjunto, numa equipe bem grande.”
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