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‘Obra Completa’ do escritor Raduan Nassar interroga o Brasil

03 de janeiro de 2017
2 min de leitura

Assim como outros escritos, o livro questiona fundamentos da cultura e identidade nacionais

A luxuosa
edição de capa dura com mais de 450 páginas, que reúne escritos diversos do
paulista de Pindorama Raduan Nassar, produzidos entre 1958 e 1981, sob o título
definitivo de Obra completa, coloca ao leitor a seguinte pergunta:
quando e como se completa a obra de um escritor? O que define que a escritura
de alguém se completou? Muitas vezes, o uso do plural – obras completas – e sua
publicação em diversos volumes deixa em aberto a possibilidade de que mais um
livro à série possa levar adiante a obra e adiar, portanto, sua completude.
Entretanto, a brevidade dos contos e romances de Raduan Nassar, publicados ao
longo dos anos 1970, e seu mutismo literário desde então, parecem exigir dos
editores, por um lado, um volume único e, por outro, a percepção de que sua
obra teria chegado ao fim. O leitor que se aventurar ao longo das quase
500 páginas da Obra completa vai
se deparar, inicialmente, com o intenso e perturbador romance Lavoura arcaica (1975), cujo
projeto é exposto em nota do próprio escritor “o Autor partiu da remota
parábola do filho pródigo, invertendo-a” (pág. 199). Ora, todos os escritos de
Raduan parecem ecoar tal proposta: fazer frente ao patriarcado retrógrado que
nos constitui como nação. O texto seguinte, Um
copo de cólera
(1978), tem um acabamento formal menos complexo,
aproximando-se mais da novela que do romance, dada a simplicidade, a
intensidade e a brevidade da obra. O terceiro texto do livro, o conto Menina a caminho (1972), traz
depurado o tratamento do autor ao universo feminino: uma menina caminha por uma
cidadezinha. O livro se fecha com o breve ensaio sobre o Brasil, até então só
publicado na Alemanha, A corrente do
esforço humano
(1987), no qual o autor oferece sua versão sobre a
viagem das ideias europeias ao Brasil em relação à cultura e à identidade
nacional.

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Talita Facchini

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