Escritor lamenta provável fechamento da livraria Palavraria, em Porto Alegre
‘A Palavraria é um centro cultural espontâneo que surge à revelia das iniciativas oficiais’, diz Reginaldo Pujol Filho
Faz uns 10 anos: a Ana me tirou no amigo secreto e queria
dar um livro. Consultou a Carla, que sugeriu um autor português desconhecido,
um tal Gonçalo M. Tavares que, dizia ela, era a minha cara. A Ana topou a
aposta, me deu O Senhor Henri e
desatou minha paixão pela obra do Gonçalo. Anos depois, fui aluno dele em
Lisboa e em 2014 ajudei a organizar sua primeira vinda a Porto Alegre para um
curso. Por que conto isso? É que tudo se deu na Palavraria, livraria de Porto Alegre que, dizem, fechará no final do ano.
Há dias repetidamente lembro do verso do Vinícius, “é preciso inventar de
novo o amor”. Até que ponto nossa cidade se turvou, que parece inviável
existir um espaço como a Palavraria? Sei que sempre alguém paga a conta, mas um
lado meu sofre ao ver que a paixão por livros que move a Carla, o Heron e o
Carlos não basta. É preciso gestão. Livrarias, futebol, política, cultura, só
se fala em gestão. A vida não é mais para amadores. “É preciso lotear o
nosso amor”, respondeu Tom Jobim, desiludido, a Vinícius e Toquinho. Outras
odes ao CEO: que pequenas livrarias não podem competir com a Amazon ou
megastores; que na Amazon tudo está a um clique; que a linda (e é mesmo)
Livraria Cultura no centro do Rio tem quatro andares e centenas de milhares de
títulos. Ah, mal do século 21. Realmente precisamos encontrar todos os livros
num só lugar? Ter acesso instantâneo a tudo o tempo todo?
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