Ferreira Gullar: ‘Se você me ama, me deixa ir em paz’
Escritor pediu à mulher, a também poeta Claudia Ahinsa, para não sofrer intervenções que prolongassem sua agonia
Quando os médicos do Hospital Copa D’Or, em lugar da alta
prometida, diagnosticaram uma pneumonia, na última sexta-feira (2) – vigésimo
terceiro dia da sua internação -, o poeta e acadêmico Ferreira Gullar rechaçou
a opção de ser entubado. Pediu à mulher, a também poeta Claudia Ahinsa, para
não sofrer intervenções que prolongassem sua agonia. “Se você me ama, não deixe
fazerem nada comigo. Me deixe ir em paz. Eu quero ir em paz”, pediu àquela que era sua companheira havia 22 anos.
O poeta morreu dois dias depois, na manhã de ontem. “Foi uma decisão
muito dura para nós, para a família e para mim. Mas era o que tinha de ser feito”, disse
Claudia, muito emocionada, ao Estadão. Gullar sentiu intensa falta de ar
na madrugada de 9 de novembro. Foi levado para o Copa D’Or, onde os médicos
diagnosticaram pneumotórax, a entrada de ar na pleura, a fina membrana que
recobre os pulmões. O casal imaginava que a internação seria curta.
Preferiu não alarmar os amigos. Com o passar dos dias, os acadêmicos sentiram
falta de Gullar nos encontros semanais da Academia Brasileira de Letras, aos
quais ia com assiduidade. Claudia começou a contar a um e outro sobre a
internação. No início, Gullar escreveu de próprio punho a crônica semanal
publicada na Folha de S. Paulo. Depois, com o agravamento do quadro, passou a
ditar o texto para a mulher. Desde 2009, às vésperas de completar 80 anos,
Gullar não escrevia poesia. “Escrever poesia era um processo que vinha do
espanto. Ele dizia que já não se espantava com mais nada. As coisas eram
simples assim. Seus livros eram espaçados, levava 12 anos entre um e outro. O
último foi publicado em 2010. Ele poderia voltar a escrever. Mas não voltou”,
afirma Bastos. Gullar deixa a mulher, os filhos, Luciana e Paulo (o primogênito
Marcos morreu em 1992, de cirrose hepática), oito netos e sete bisnetos.
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