A direita na vitrine
Intelectuais conservadores ganham força na arena cultural, viram best-sellers e estão no centro de programas de TV e na internet
Carlos Andreazza ficou cinco meses à espera de se concretizar o convite da editora Record, entendido por ele como a grande chance de sua vida profissional. Ansioso, usou o tempo para estudar o catálogo da segunda maior editora brasileira e descobriu que coletâneas de artigos de Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, batendo no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ficaram meses na lista dos best-sellers e venderam 50 mil exemplares – marca surpreendente em um país onde 5 mil livros faturados já configuram sucesso editorial. Na entrevista em que foi formalizada sua contratação como editor de não ficção da Record, revelou a Sergio Machado (1948-2016) – então presidente do grupo – a intenção de explorar esse filão: escritores brasileiros de direita. “Ele era um liberal brigão e me disse: ‘Vai nessa’. Eu botei o bloco na rua”, conta Andreazza ao Valor Econômico. Vendeu 1 milhão de livros da chamada “nova direita brasileira” entre 2012 e 2016, 20% da produção de não ficção da editora, até então com catálogo ocupado por uma maioria de autores estrangeiros mais identificados com o campo progressista. Com a aposta em polemistas de direita, a editora foi contra o consenso do mercado de que o “povo de esquerda” vende mais livro e lê mais. Ao mesmo tempo, chacoalhou o modelo do intelectual engajado, inspirado em Jean-Paul Sartre (1905-1980) e Simone de Beauvoir (1908-1986), símbolos dos acadêmicos que consideram obrigação moral intervir no debate público sobre os caminhos do mundo.
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