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Gênero é obrigação

08 de novembro de 2016
3 min de leitura
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Em sua coluna, Paulo Tedesco fala sobre a importância de se delimitar bem o gênero do livro que está sendo escrito e publicado -- de forma independente ou não

De pronto, um escritor mais cioso de seu ofício ou um bom professor de literatura saberia dizer ao seu aluno que, para um bom poema, antes do verso livre é recomendável certa intimidade com a métrica e o que é clássico. O curioso, nesses tempos digitais, é que muitos, ou melhor – uma boa maioria – se quer faz ideia do que é clássico e do que é verso livre, embora sinta e pratique a muito humana necessidade de versejar em texto o que está a lhe comover.

Junto a esse desconhecimento das estruturas da poesia, surge também a ignorância sobre os gêneros literários, ou seja, muitos não fazem a mínima ideia da separação entre verso e prosa, e de ficção e não-ficção. Não por coincidência a qualidade dos livros de autopublicação, ou mesmo aqueles publicados por editor contratado, se apresentam ruins estrutural e editorialmente.

Mas o problema é mais profundo – e porque não seria se hoje somos mais do que nunca periféricos e bananeiros? Pois o autor que chega à autopublicação, seguidamente desconhece também a separação de gêneros da literatura, não sabendo a diferença entre crônica e conto, romance e ensaio, novela e roteiro. E o resultado, todos sabem: parte significativa dos esforços de autopublicação é jogada fora, literalmente na lata do lixo.

E é por isso que condeno o tal do KDP da Amazon e correlatos, porque incentivam a publicar sem antes educar, sem antes orientar, fazendo de conta que bons textos surgem por geração espontânea e que o sucesso é fruto da sorte ou de algum programa de auditório! Talvez, e nitidamente, o interesse desse tipo de empresa não seja o de fomentar literatura, e sim justificar números para acionistas e anunciantes. Ainda assim há uma imensa maioria de “entendidos” em produção literária que tampouco sabem do assunto e acham tudo legal, bonito, tudo a vale a pena, e ao invés de auxiliar, fazem coro com o equívoco prolongando a desinformação.

Mas a questão passa, e o leitor deve já ter se apercebido, pelas escolas de qualquer nível e em qualquer área. Uma vez que a literatura é base na formação do estudante, diabos, porque tantos dominam o mínimo nessa questão de gênero literário?

No mercado de autopublicação norte-americano, uma das primeiras lições para os seus “selfpublishers” é que se defina o gênero em que se escreve. Simples assim. Defina seu gênero e verifique a quantidade de palavras dos originais; dependendo desses dois elementos, seu livro pode ou não seguir adiante – veja que aqui não se fala de conteúdo ou qualidade do conteúdo, mas de dois dados independentes, porém cruciais para disputar se atenção de um agente literário norte-americano.

Bom, se no maior mercado editorial do mundo é orientado aos autores (autopublicadores ou não), que tenham a mais clara noção de gênero literário, por que insistimos não aprender o assunto? Ou por que insistimos ignorar e seguir publicando e reclamando que não nos compram, não nos leem? Façamos o dever de casa. Existem oficinas de escrita criativa no Brasil, e boas, bem como bons livros para se aprender, não espere o não de um editor ou uma frustrada participação em concurso. Para participar do mercado editorial tem que saber separar as coisas. E não pode ser diferente disso.

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Paulo Tedesco
Paulo Tedesco

Paulo Tedesco é escritor, editor e consultor em projetos editoriais. Desenvolveu o primeiro curso em EAD de Processos Editorais na PUCRS. Coordena o www.editoraconsultoreditorial.c...

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