Romance explora a figura controversa de Floriano Peixoto
Em ‘O marechal de costas’, José Luiz Passos vê ecos do presente na história do vice que assumiu a presidência em 1891
É um desejo de qualquer escritor: esbarrar, nas esquinas ou
na imaginação, com um personagem que pareça tão pronto que provoque de imediato
a ideia de um romance. Foi o que aconteceu há um par de anos com o premiado
escritor pernambucano José Luiz Passos. Em 2014, seu editor brasileiro, Marcelo
Ferroni, havia lhe encomendado um conto para uma coletânea temática sobre
traição. José Luiz, que dá aulas de Literatura Brasileira na UCLA, nos Estados
Unidos, estava mergulhado em pesquisas sobre a Revolta da Armada, rebelião de
marinheiros contra o governo de Floriano Peixoto em 1893, e perguntou a Ferroni
se podia escrever sobre traição política, focando na figura de Floriano.
“Pode”, respondeu o editor. Quando Passos entregou o texto, o editor animou-se
com as muitas possibilidades narrativas que brotavam de Floriano: o “marechal
de ferro” era um sujeito de silêncios desconcertantes, casado com a meia-irmã,
obcecado por Napoleão Bonaparte, que lia muito, desenhava bem (nas suas
cadernetas, ensaiava diferentes tipos de vagina), e ao mesmo tempo era capaz de
comandar matanças desumanas, como na campanha do Paraguai. Ferroni sugeriu que
o autor investisse mais tempo naquele personagem tão cheio de minúcias e
contradições, quem sabe para um romance. Foi a vez de ele querer saber se o
autor topava a proposta. Assim surgiu
O
marechal de costas
(200 pp, R$ 44,90), romance histórico que Passos acaba de lançar pela
Alfaguara, em que o protagonista da trama, Floriano Peixoto, tem sua biografia
contada ora por eventos do passado, ora do presente. Que é narrado mais
especificamente em 2013, quando uma cozinheira, depois de preparar um jantar na
casa de um advogado, entra em uma longa conversa com um dos convidados, um
professor falastrão. No diálogo, ele ouve a história da vida dela (a trama apresenta
indícios de que ela é aparentada do marechal Floriano Peixoto) enquanto fala
sobre a política atual. E é assim que a personagem — criada em homenagem à mãe
do autor, cozinheira de mão cheia e hoje dona de um bufê em Pernambuco —
percebe os desdobramentos das manifestações que tomaram o país naquele ano.
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