Com ‘A vista particular’, Ricardo Lísias lança romance ácido sobre o Brasil
Em novo romance, escritor provoca o senso comum nacional com história irônica situada no Rio
Um artista plástico de certa reputação desce a Rua Sá
Ferreira até a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, completamente pelado e
fazendo um gingado particular: dezenas de curiosos filmam a “performance” e
sobem os vídeos no YouTube. Ele vira uma estrela na web, conhece o chefe do
tráfico no morro Pavão-Pavãozinho e inicia sua obra-prima: uma intervenção na
comunidade, uma espécie de metonímia, sinédoque, que acaba tomando dimensões
inesperadas. Essa é a premissa um tanto quanto maluca do novo livro de Ricardo
Lísias, A vista particular, publicado
pela Alfaguara. No meio desse aparente surrealismo, o autor aborda de perto
vários temas do Brasil contemporâneo, como a Olimpíada, a violência policial, a
espetacularização de tudo via redes sociais e uma permanente injustiça social.
Entre as obras que o personagem monta na sua instalação, estão, por exemplo,
“Família com um filho no tráfico e outro na escola” e “Local em que a polícia
pega a parte dela”. Tudo isso com uma estrutura narrativa particular e irônica.
Desde 2009, com O livro dos mandarins,
o escritor se firmou como uma das vozes mais criativas da literatura brasileira
contemporânea (cinco livros vieram antes). No Mandarins, o notável era a engenhosidade da narrativa; com O céu dos suicidas (2012) e Divórcio (2013), ele explorou com força
os limites da autoficção; com a série Delegado
Tobias (e-galáxia) e com o Inquérito
policial: Família Tobias (Lote 42), experimentou formatos e plataformas, sem
nunca perder de vista a trama.
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