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Em novo romance, Cristovão Tezza reflete a crise do Brasil atual

03 de outubro de 2016
2 min de leitura

Autor assume voz feminina em 'A tradutora', que acaba de chegar às livrarias

É aquela velha história: se fôssemos deixar um romance,
unzinho só, numa suposta cápsula do tempo a ser encontrada daqui a muitos anos
por escafandristas ou extraterrestres, um romance que os fizesse sentir (quem
sabe até entender) as questões que nos assolaram nestes tempos brasileiros, a
nova obra de Cristovão Tezza,
A tradutora
(Record, 208 pp, R$ 42,90), podia ser metida lá dentro. Dos mais seguros
romancistas em plena produção no país, o catarinense conseguiu tocar em temas
que esbarram em qualquer pessoa que tenha vivido por aqui nos últimos anos —
mais precisamente em 2014, quando se passa a trama, durante os preparativos
para receber a Copa do Mundo. Os conflitos de um relacionamento abusivo, os
debates sobre as cotas raciais, as críticas à máfia do futebol, a vida
exaustiva de quem tem que “camelar” ou “frilar”, as reuniões de condomínio, a
personificação do Facebook, o fetiche da classe média com as religiões
africanas, a crise política, até a onipresente expressão “coisa de veado”. Está
tudo em qualquer esquina e está tudo no romance. Não por acaso, Tezza o faz sob
o ponto de vista de uma protagonista mulher, Beatriz. Resgatada de obras
anteriores, aqui ela passa três dias trabalhando como tradutora de um alto
executivo da Fifa enquanto tenta se livrar de Donetti, o namorado ególatra, e
entregar uma tradução atrasada.

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