Mario Quintana, poeta de fino humor, nascia há 110 anos
Simplicidade do escritor vinha de um refinamento que era fruto de madureza
Mario Quintana (1906-1994) não gostava de homenagens. O próprio fazia questão de contar a história de quando, convidado a escolher um poema para uma placa em sua homenagem na praça principal de Alegrete, recusou-se com a justificativa de que “um erro em bronze é um erro eterno”. O que era para render mais uma página à lista das deliciosas anedotas de Quintana acabou se tornando eterna boutade graças ao prefeito da cidade natal do poeta, que aproveitou o episódio como conteúdo da placa. Isso ilustra o fino humor de um poeta que detestava o teor protocolar dos encômios, e, especialmente, no mundo literário, o solene das escolas literárias e academias de letras. A obra e a personalidade de Quintana, contudo, não se resumem ao seu tão conhecido gosto pelas coisas simples. Nem às suas excelentes boutades, como dizer dos materialistas que são “o sepulcro de Deus” ou que os modernistas brasileiros um dia descobriram o Brasil. Quando dizia que não era preciso buscar “o lado de lá”, porque já há muito mistério neste mundo, Quintana dizia-o como poeta íntimo dos mortos e das crianças, esses que permanecem quem são num tempo de relógio sem ponteiros. Sua simplicidade vinha de um refinamento que era fruto de madureza e de um convívio com o “mistério evidente” de uma poesia que não se deixa definir nem explicar. Nesses 110 anos de Mario Quintana, comemorados neste sábado, dia 30 de julho, quem se dispuser a revisitar seus livros, na bela coleção da editora Alfaguara, encontrará não só um amigo das singelezas da vida. Encontrará também alguém que sabia ser sublime.
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