Novo livro de Antonio Carlos Viana tem serenidade inesperada
Contos são alinhavados por exercícios de desesperança
Exercícios de desesperança alinhavam os contos reunidos em Jeito de matar lagartas (Companhia das Letras, 152 pp, R$ 34,90). O escritor sergipano Antonio Carlos Viana elabora a imagem de um desencontro permanente –e isso num arco temporal que abarca desde a perda da inocência na infância ao divórcio crescente entre sexo e corpo na velhice. Roteiro da Solidão destaca-se nessa galeria de ilusões perdidas. Dona Ineide coloca seu casarão à venda apenas para driblar o isolamento, recebendo possíveis compradores. Na frase perfeita, incisiva pela ambiguidade: “Às vezes cantava só para sentir que ainda tinha voz”. Eis a força da prosa: ela cantava somente para escutar-se porque vivia sempre sozinha. Um dia, Dona Ineide recebe a visita de Luís Rabelo, um amor platônico de sua adolescência. Os dois principiam uma tímida relação, interrompida bruscamente: “As semanas se passaram e seu Rabelo sumiu de vez”. Para sempre, conclui o leitor. E por um motivo propriamente irremediável. Afinal, se os contos lidam com “a vida e seus descaminhos”, pelo menos uma via se mantém firme: a finitude.
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