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Aventura de David Foster Wallace remete a um tatear interno do que nos constitui

21 de novembro de 2014
2 min de leitura

O tom pseudoenciclopédico jamais soterra o que importa: o olhar tristemente lúcido sobre as relações familiares, o vício e a depressão

Há livros que é melhor encarar como aventuras literárias extremas. São extensos, exigentes, tidos pelos preguiçosos como ilegíveis, mas que podem ser – e são – muito divertidos, além de conseguirem morder nacos inteiros da experiência humana. Cito três: Ulysses, de James Joyce, O arco-íris da gravidade, de Thomas Pynchon, e Graça infinita (Companhia das Letras, 1144 pp, R$ 111,90), de David Foster Wallace, lançado há 19 anos e que agora chega ao Brasil, traduzido por Caetano Galindo. A história se passa num mundo futuro, em que EUA, México e Canadá formam um superestado, a Organização das Nações da América do Norte (isso mesmo, Onan), e um bom pedaço do continente foi transformado num depósito de lixo tóxico. A Onan é presidida por uma paródia grotesca de Reagan chamada Johnny Gentle, responsável por essa “Reconfiguração”. Muito do romance gira em torno de uma família, os Incandenza. Outro núcleo narrativo está na clínica de reabilitação Ennet, localizada proximamente a uma cidadezinha fictícia da área metropolitana de Boston. Para dar conta da enorme teia de relações, lembranças, idas, vindas e digressões, David Foster Wallace recorre a vários registros. Além das notas que tomam 133 páginas ao final, temos cartas, relatórios, testemunhos, interrogatórios e descrições de filmes. Mas em nenhum momento se tem a impressão de um exercício estilístico gratuito. Graça Infinita não é cifrado ou hermético. O romance institui uma realidade alternativa, brinca com o caos político, mas jamais se desvia da matéria humano-afetiva que o anima.

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