O Círculo é brilhante ao rir da vontade humana de ser amado
Nesse livro, Dave Eggers imagina um microuniverso de uma empresa onde todo mundo tem que dar sua opinião
Em 1984, George Orwell projetou sua imaginação para um futuro de quase quatro décadas e imaginou um mundo onde ninguém podia ter uma opinião, muito menos gostar de outra pessoa —a não ser, claro, do Grande Irmão. Dave Eggers, em O círculo (Companhia das Letras, 528 pp., R$ 54,50 – Trad. Rubens Figueiredo), imagina um microuniverso de uma empresa que poderia bem existir nos nossos dias, onde todo mundo tem que dar sua opinião, se possível positiva —e todo mundo fica feliz quando se sente “curtido”. Difícil imaginar qual dos dois cenários é mais terrível. Eggers, mestre do olhar contemporâneo, aponta desta vez para a própria fraqueza das comunidades que estamos criando: a identidade geral delas, que a princípio parece pregar a aceitação e a liberdade, guarda na sua essência uma tirania muito próxima à do Grande Irmão. Ela é orquestrada por uma empresa —o tal Círculo— que desenvolveu uma ferramenta de identificação infalível na internet. Ninguém mais pode assumir uma falsa identidade, e é com essa transparência máxima que o Círculo floresce rumo à dominação mundial.
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