Caderno de bordo
Um diário de viagem de Clarice Lispector desaponta quem quer ver ali anotações turísticas. O que se vê são algumas inspirações para sua obra
Depois de passar os primeiros 15 dias em Lisboa, descobri que o site do Instituto Moreira Salles dispõe, entre outros documentos, um caderno de viagem de Clarice Lispector entre julho e agosto de 1944. E que na primeira quinzena de agosto – exatamente há 70 anos – ela também esteve em Lisboa. Fui logo atrás desse material, com a ideia de comparar a Lisboa que ela tinha visto com a Lisboa que eu tinha acabado de ver. Quando cheguei ao desejado caderno de viagem logo me deparei com certa dose de decepção. Não se tratava propriamente de um caderno de viagem. Não havia anotações de um viajante que conta com detalhes tudo o que vê. Lisboa não estava lá, eu não teria nenhum material de comparação. A graça residia em parte nessa decepção, que pode ser traduzida como a quebra de um paradigma. Assim como seus romances rompem a ideia tradicional de romance, seu caderno de bordo pouco fala dos lugares onde a autora esteve. Fala, sim, de pessoas com quem conviveu, de questões práticas como trocar dinheiro e arranjar as unhas e de personagens do romance O lustre, em processo na altura.
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