O fantástico Cortázar
A lição deixada pelo escritor, cujo centenário de nascimento se celebra, é de que a ficção não está no fabuloso, mas nas miudezas do cotidiano
Nascido em 26 de agosto de 1914, o escritor argentino Julio Cortázar considerava a literatura “uma empresa de conquista verbal da realidade”. Antes das palavras, a realidade é amorfa e difusa, não apresenta formas precisas, não tem um rosto. Só as palavras lhe conferem uma fisionomia. Mas é a literatura – palavras potencializadas em um estilo – que lhe sopra vida e contorno. Em célebre ensaio sobre a situação do romance, Cortázar escreve: “A literatura vai apoderando-se paulatinamente das coisas e de certa forma as subtrai, roubando-as ao mundo”. A literatura é, pois, uma conquista do real. Cada vez que um leitor lê uma ficção, contudo, essas mesmas coisas são devolvidas ao mundo, agora potencializadas. Para Cortázar, a literatura é uma máquina de energizar e impulsionar a realidade.
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