O olhar portenho de Roberto Arlt sobre o Rio de Janeiro
Dois livros trazem textos do escritor argentino sobre sua passagem pela cidade, em 1930, em que ele descreve com acidez diferentes tipos cariocas
Ao ver uma série de fotos do velório de Robert Arlt, Ricardo Piglia detém-se no retrato do caixão pendurado por cabos. O corpo, grande demais para passar pelo corredor, teve que ser retirado pela janela por meio de uma engrenagem de cordas e roldanas. “Aquele caixão suspenso sobre Buenos Aires é boa imagem do lugar de Arlt na literatura argentina”, observa Piglia. “Ele sempre será jovem e sempre estaremos tirando seu cadáver pela janela”. Arlt morreu em 1942, aos 42 anos. A alegoria, porém, diz menos respeito à juventude eternizada na partida precoce do que à contemporaneidade de seus textos. Escritos que, durante muito tempo, foram massacrados pela crítica. […] Nos contos e em romances como “Os sete loucos” e “Os lança-chamas”, o escritor construiu um discurso que mescla referências ao cânone e o léxico nervoso das ruas. Esses traços, da temática ao registro, estão presentes também nas crônicas que assinou entre 1928 e 1942 na seção “Aguafuertes porteñas”, no “El Mundo”. Foi o diretor do jornal, Muzio Sáenz Peña, quem batizou a coluna, inspirando-se na técnica de gravura que se vale da ação corrosiva do aço nítrico sobre placa metálica. A acidez de Arlt estava bem representada.
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