Criticar ou falar mal?
A velha crítica, com seu sonho de isenção e objetividade, foi rebaixada a utopia, vindo a ser substituída pela crítica fragmentária, tendenciosa
Para nós, criticar significa “apontar defeitos, dizer mal, denegrir” (Houaiss), e toda crítica é sempre “opinião desfavorável, censura, condenação” (idem). Se não for assim; se se limitar a distinguir o joio do trigo, com imparcialidade; se proceder, serena e equânime, no encalço da razão objetiva – aí quem perde prestígio é o crítico, logo acusado de não ter opinião própria e ficar em cima do muro. Só admitimos como verdadeira a crítica que fala mal. “É um espetáculo abaixo da crítica”, “Tal ou qual obra é pra lá de criticável”, “Fulano só sabe criticar”, “Quem não sabe fazer… critica”, “É preciso estar preparado para receber críticas” etc., etc. Alguém conhece outro sentido para “criticar”? Isso se deve, talvez, ao pragmatismo dominante em nossa cultura, que recomenda ir direto ao ponto, sem perder tempo com arrastadas análises, via de regra hesitantes entre perspectivas que se anulam ou se contradizem e costumam adiar para São Nunca o veredito definitivo. Queremos “crítica”! E queremos já.
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