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Uma grande surpresa

04 de janeiro de 2013
2 min de leitura

‘As visitas que hoje estamos’, livro de estreia de Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, mostra uma ficção que parece evitar ser reconhecida como ficção

O não fictício de As visitas que hoje estamos (Iluminuras, 448 pp., R$ 53) não tem nada a ver com nossa tradição naturalista de romances documentais e de testemunhos. Tem sim a ver com a ausência de dois ingredientes comuns na obra romanesca: o enredo e a unidade de dicção. O enredo é tradicionalmente o meio pelo qual o escritor coordena as ações, impede que elas se descaminhem ou se tornem semelhantes a um curso d’água que, na ausência de um leito, extravasa pelas margens. Ora, nesse sentido, “As Visitas” não tem enredo. Se o livro então não cai nos defeitos apontados é porque seus personagens são os anônimos de toda uma comunidade. Qual comunidade? Aquela que é coberta pela quebra da unidade de dicção. Ou seja, a ausência de um ingrediente usual se acompanha da ausência do outro. Com efeito, a unidade de dicção, com frequência entendida como “estilo”, é substituída por uma dualidade de dicções: a dominante é a de cunho rural-interiorano, a dominada é a dicção culta, que remete à fala do próprio autor.

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