Na fronteira da memória
Verdade ou mentira? Autobiografia ou ficção? Para fugir da escolha surgiu a palavra autoficção, muito em voga atualmente
Uma palavra conquistou a linha de frente da literatura contemporânea: “autoficção”. Ela surgiu na Europa, para designar romances fronteiriços, que vacilam entre a memória e a fantasia, como os relatos assombrosos do espanhol Enrique Vila-Matas. […]Primeiro problema: essas narrativas lidam, também e ao mesmo tempo, com lembranças inventadas. Ou seja: a deformação (da verdade em mentira e da mentira em verdade) se desenrola nas duas direções. São romances que manipulam a memória, sim, mas uma memória indigna de confiança, que se dissolve na sombra da ficção. […]Há pouco tempo, li na internet um breve comentário de Antonio Xerxenesky. Refletindo a respeito da existência da “autoficção”, Xerxenesky nos oferece, em vez de uma resposta, uma pergunta: “Não seria toda autobiografia também ficcional?” Eis o problema das fronteiras: pode-se saltar, sempre, de um lado para outro, como os turistas que, postados sobre a linha do Equador, brincam de colocar o pé direito no Hemisfério Sul e o esquerdo no Hemisfério Norte.
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