O novo tempo dos originais on-line
De Kerouac ao Twitter, como a tecnologia influenciou a escrita
A gaveta sempre foi uma grande aliada da literatura. Escrito, um texto passava necessariamente por uma quarentena, para ganhar aquele tempero que só o tempo concede às coisas feitas para durar. Muitos não resistiam a uma leitura posterior e eram descartados. […] Facilidades tecnológicas e uma percepção mais imediatista da criação literária modificaram completamente os meios de produção de literatura. Ainda em meados dos anos 80, o grande debate era sobre o inocente uso do computador. Puristas de todos os credos defendiam que a escrita eletrônica tirava o peso da palavra, tornando-a algo muito volúvel, facilmente cambiável e, por isso, inadequada como prova material. O símbolo da adesão, no Brasil, a essa nova temporalidade talvez seja o baiano João Ubaldo Ribeiro, que traduziu para o inglês o seu romanção “Viva o Povo Brasileiro!” (1984), usando pela primeira vez (e desde então sempre) o computador. Aos poucos, a escrita digital se fez uma constante entre os ficcionistas, embora alguns ainda escrevessem tudo à mão para só depois passar para os arquivos. […] O que se experimenta nas redes sociais, nos seus infinitos tentáculos, é algo que poderíamos definir como literatura instantânea. Produzida e consumida num agora nunca antes tão urgente, a literatura nasce e fenece ao mesmo tempo. Uma postagem no Twitter é atropelada por outra no ato da sua escrita, e a fila cronológica das produções anda numa espécie de velocidade da luz.
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