A solidão como companhia
Um escritor precisa se afastar das circunstâncias, dispensar os apelos do real, ignorar os pedidos alheios para centrar-se em si mesmo e, assim, poder criar
Em meados dos anos 1990, em Buenos Aires, visitei o escritor Adolfo Bioy Casares. Já passava dos 80 anos e, embora vivesse entre frascos de remédios e enfermeiras carrancudas, continuava a se vestir com elegância e a escrever durante as manhãs. Passava a maior parte do tempo em seu quarto, fato que, contudo, não o aborrecia. Impressionado com sua resistência, perguntei-lhe como combatia a solidão. Lembro que respondeu: “A solidão não se combate, a solidão acompanha”. Puxou, então, de uma gaveta o manuscrito de um pequeno conto, “Uma Porta se Entreaberta”, e me pediu que o lesse. “Aí está a resposta”, me disse antes de me entregar o relato. Quase uma década depois – Bioy Casares já estava morto –, reencontrei o conto na página em Uma Magia Modesta, livro de narrativas curtas que ele publicou pouco antes de morrer, em março de 1999.
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