Alguns achados e impressões de Portugal
Impressões de Portugal
Para mim, os melhores livros de cozinha resultam de uma feliz união entre receitas interessantes (combinações inéditas, registros de pratos tradicionais, insights a respeito de técnicas e ingredientes etc), um projeto gráfico bacana e textos inspirados – eu já ia dizendo “saborosos” quando percebi o trocadilho infame, mas, no fundo, é isso mesmo. Se a obra tiver uma certa vocação literária, então, fica irresistível. Foi por isso que comprei Cozinha d’amigos (Oficina do Livro, 106 pp., 24,40 euros), do jornalista e escritor português Miguel Sousa Tavares (de Equador, No teu deserto e Não te deixarei morrer, David Crockett): muito mais pelas histórias que ele conta na apresentação de cada receita do que pela sopa de peixe matalote, do bife à portuguesa ou do polvo assado com arroz. Fiquei ali, na livraria de Lisboa, lendo em pé mesmo e me divertindo com as narrativas e com as opiniões às vezes meio mal-humoradas do escritor, como a ojeriza pela nouvelle cuisine (“Abomino o conceito, abomino a linguagem pretensiosa e ridícula dos seus menus, abomino a decoração gay dos pratos, abomino o show-off dos seus personagens, abomino o novo-riquismo dos seus restaurantes e dos preços para patos-bravos.”) e a instrução para que sejam usados produtos portugueses na sopa de meloa (“… jamais as insípidas meloas espanholas dos supermercados portugueses – que, como toda fruta espanhola que eles patrioticamente promovem [e porque lhes sai mais em conta], sabe apenas a água injectada. Da Espanha chegam muitas coisas boas; as frutas e os legumes, não.”).
Essa obra de Miguel Sousa Tavares pertence a um gênero pouco explorado dos livros de receitas: aqueles escritos por homens comuns, que não têm restaurantes famosos nem programas badalados na TV. Ou, como ele mesmo diz no texto de introdução, “homens-cozinheiros domésticos, da geração dos Beatles, que aprenderam a cozinhar, sem pretensão alguma – primeiro por motivo de divórcio e de libertação feminina, depois por curiosidade, interesse ou relaxamento”. Aqui no Brasil, eu me lembro de dois títulos que seguem a mesma linha: A cozinheira e o guloso (BEI, 216 pp., R$ 110), de Thomaz Souto Correa, com receitas de Mazzô França Pinto, e Senhor prendado – Um homem que se diverte na cozinha (Leya Brasil, 400 pp., R$ 99,90), de João Baptista da Costa Aguiar.
****
Não fui a tantas livrarias quanto gostaria de ter ido em Lisboa, mas uma coisa me chamou a atenção nas que eu pude conhecer, quase todas nos bairros do Chiado e da Baixa: a inexistência de uma mesa expositora para livros de cozinha, como já é comum aqui no Brasil em (quase) qualquer loja. Apenas a Fnac do shopping Armazéns do Chiado dedicava um espaço maiorzinho ao gênero, mas de uma maneira bem tímida se comparada aos endereços brasileiros da rede.
****
Em compensação, não só nas livrarias, mas também nas lojas instaladas em diversos museus e em endereços charmosinhos – como A Vida Portuguesa, que vende desde brinquedos com cara de antigamente até sardinha e atum em conserva, cadernos, tapetes e sabonetes, tudo fabricado em Portugal –, eram onipresentes os livros da Colares Editora, que tem uma linha dedicada à culinária regional e histórica do país. São volumes simples, com títulos como A cozinha dos mosteiros, Cozinha da Beira Alta, A arte de comer em Portugal na Idade Média, Licor Beirão – Histórias e receitas e vários dedicados aos doces tradicionais, conventuais ou não: de Coimbra, do Algarve, do Alentejo… Não me lembro de ter visto nenhuma produção tão farta, lançada por uma única editora, a respeito da memória gastronômica de um lugar. Bem que esse exemplo poderia ser seguido também aqui no Brasil.
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta