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A vencedora do Andersen é totalmente analógica

23 de março de 2012
5 min de leitura
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María Teresa Andruetto, que ganhou o Nobel de literatura para crianças, não acredita que as novas tecnologias irão mudar os livros infantis

María Teresa Andruetto é a primeira autora argentina a ganhar o prestigiado Hans Christian Andersen Award, o “Nobel” da literatura infantil, organizada desde 1956 pelo International Board of Books for Young People e apresentado a cada ano na Bologna International Children’s Book Fair. Ela vive afastada nas lindas “sierras” de Córdoba (900 km a noroeste de Buenos Aires). Não tem celular, ama sua família, seus gatos e cachorros, e não entendeu bem quando eu sugeri uma conferência via Skype para entrevistá-la para a Publishing Perspectives.

Nascida em 1954 no meio de uma família de imigrantes de Piamonte, Itália, no que então constituía o Cinturão de Trigo dos Pampas argentinos, Andruetto está convencida de que seus escritos não seriam os mesmos se ela não tivesse “crescido numa cidade pequena onde os filhos de italianos não eram vistos como esquisitos”. Arroyo Cabral, a cidade em questão, era naqueles distantes dias o outro caldo cultural das Américas: sírios, libaneses, turcos, bascos, galegos e judeus viviam em harmonia, batalhando para conseguir (o mais tarde derrotado) sonho de “vencer” no Novo Continente.

“Você escreve com o que tem; histórias são experiências que precisam ser compartilhadas depois de ter sido lavada pelas águas do tempo”, ela diz. “Um marido que sofreu exílio político, ter de sustentar minhas filhas em tempos complicados, meu curto, mas importante exílio na Patagônia, meu contato com pessoas de todos os tipos, uma preocupação social desenvolvida desde cedo, formam o tecido que envolve meus livros.” Isso e a influência de seu pai, um partisano italiano que conseguiu sair da Itália em 1948 quando conseguir passagens para cruzar o oceano no pós-guerra era muito difícil.

“Havia muita gente ausente na casa do meu pai — a família deixada na Europa, os mortos. Cresci numa casa cheia de livros, mas o que foi mais importante para meu desenvolvimento como escritora foram as histórias familiares repetidas muitas vezes durante o jantar.”

Vocês precisam saber: os livros de Andruetto, para crianças e jovens, estão mais para Holes de Louis Sachar do que para Coraline de Neil Gaiman.

Ela também é uma premiada escritora de romances, poesia e peças de teatro. “Não vejo muitas diferenças em escrever para criança e para adultos. Nem encontro qualquer obstáculo em mudar de gênero. São exemplos da mesma experiência desdobrando-se em histórias que são únicas. É a história que começo a escrever que decide sua própria audiência e eu a sigo, humilde.”

Voltada ao texto, Andruetto não trabalha numa equipe com ilustradores. Ela termina a história e depois espera pela interpretação do artista. “Às vezes, escolho o ilustrador, como foi com Cecilia Afonso Estevez ou Liliana Menendez. Outras vezes, é a editora que decide.”

Como era de se esperar, ao ser questionada sobre novas tecnologias e as oportunidades que elas abrem para os livros infantis, Andruetto diminui sua importância como ferramentas criativas. “Escrevo histórias e essas histórias são editadas e depois publicadas. O contêiner não importa porque é externo à escrita”, ela acrescenta, como alguém tão familiar com o formato do codex que este já desapareceu em seus olhos como uma restrição moldando a criação literária por séculos, assim como apps vão moldar um novo tipo de forma de contar histórias.

Andruetto está envolvida com ficção infantil e juvenil há mais de 30 anos, mas não exclusivamente como escritora. “Já faz muito tempo que trabalho na base, treinando professoras em novas competências, introduzindo ficção infantil contemporânea em escolas e bibliotecas. Quando eu era jovem, achei que seria feliz se conseguisse escrever em tempo integral, mas agora sei que preciso dessas outras atividades para manter o foco. Tendo todo o tempo no computador, eu começaria milhares de diferentes livros ao mesmo tempo”, ela ri.

Para confirmar seu impulso multitarefa, Andruetto agora está envolvida num ambicioso projeto sobre as mulheres escritoras argentinas que está sendo organizado pela Universidad de Villa María, em Córdoba. “Eu adoro este projeto e estou muito feliz pela universidade ter aceitado. Havia muitas mulheres escritoras talentosas na Argentina durante os anos 60 e 70 que estão sendo resgatadas do esquecimento. Devido às circunstâncias políticas, sociais e históricas, essas escritoras saíram de catálogo, ninguém se lembrava delas sendo que vale a pena lê-las. Não só pelo seu valor intrínseco, mas também porque precisamos recuperar nosso passado, como as histórias familiares na casa do meu pai mantinham vivos aqueles que morreram.”

Os trabalhos de María Teresa Andruetto são publicados pela Random House Mondadori. Ela já foi traduzida para o alemão, português, italiano e galego. Andruetto vê o Hans Christian Andersen Award, e outros prêmios que já ganhou, como uma oportunidade para chegar a um maior número de leitores.

Tradução: Marcelo Barbão

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