Leituras da mente
Neurociência avança no estudo da consciência e se aproxima de questões filosóficas discutidas por Aristóteles, Dante e Shakespeare
Enquanto explica a um leigo as principais teses de seu novo livro, E o cérebro criou o homem (Companhia das Letras, 440 pp., R$ 49 – Trad Laura Teixeira Motta), o neurocientista português António Damásio recorre alternadamente a estudos de ponta em sua área e à obra de alguns dos principais filósofos ocidentais, como Descartes e Spinoza. Mais que uma estratégia de popularização da ciência, a postura de Damásio pode ser entendida como uma tentativa de conectar os avanços nas pesquisas sobre consciência, memória e percepção a um tipo de reflexão sobre a natureza humana que costuma ser mais associado à filosofia, à psicologia e às artes. Essa postura já estava presente no livro que tornou Damásio conhecido fora dos círculos acadêmicos, O erro de Descartes, de 1994, no qual defendia que a neurociência fornece argumentos que ultrapassam o dualismo entre corpo e mente proposto pelo filósofo. O livro novo incrementa a tese com descobertas recentes que indicam que o córtex, região mais complexa do cérebro, não é a única “base” da consciência, como se costuma crer — ela estaria ligada também ao tronco cerebral, responsável por funções corporais mais primitivas, como o ritmo cardíaco e a respiração.
Leia Também
Gostou deste conteúdo?
Receba análises exclusivas como esta toda semana no seu email
Toda segunda e quinta
