“A literatura não é edificante”
O Nobel de 2010 discute a decisão do governo francês de suspender as homenagens oficiais a Louis-Ferdinand Céline, que morreu há 50 anos, por conta de sua militância antissemita
Oministro da Cultura da França, Frédéric Mitterrand, comunicou que o governo francês resolveu tirar da lista das comemorações nacionais deste ano o escritor Louis-Ferdinand Céline, morto há 50 anos. Com isso, ele cede a um pedido da associação de filhos de deportados judeus e de várias organizações humanitárias que protestaram contra o projeto inicial de render homenagem oficial a Céline, tendo em conta seus violentos panfletos antissemitas e sua colaboração com os nazistas durante a ocupação hitleriana da França. Politicamente falando, Céline foi, de fato, uma escória. É preciso dizer também que Céline foi um extraordinário escritor, seguramente o mais importante romancista francês do século 20 depois de Proust. Considerando que a genialidade artística não é um atenuante contra o racismo, a meu juízo, a decisão do governo francês envia à opinião pública uma mensagem perigosamente equivocada sobre a literatura e cria um péssimo precedente. Sua decisão parece supor que, para ser reconhecido como um bom escritor, é preciso escrever também obras boas e, em última instância, ser um bom cidadão e uma boa pessoa. A verdade é que se o critério fosse esse, apenas um punhado de polígrafos se qualificaria.
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