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A trilogia autobiográfica de J.M.Coetzee

27 de junho de 2010
2 min de leitura

Neste artigo, Cristovão Tezza trada da inaptidão para a felicidade de um dos principais autores contemporâneos

Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 2003, John Maxwell Coetzee não fez uma palestra protocolar. Preferiu ler um relato ficcional sobre Daniel Defoe. O autor de Robinson Crusoé, no conto de Coetzee, diz que na sua célebre ilha ele vivia “uma vida silenciosa”. De volta à Europa, parecia-lhe que havia “muita fala no mundo”. A citação dá uma medida do amor pelo silêncio desse autor. Coetzee construiu uma obra ficcional que poderia ser talvez sintetizada como uma densa investigação ética sobre o homem contemporâneo. Em seus 15 romances, estão presentes temas que vão desde a violência e a brutalidade militar colonial (À espera dos bárbaros), até a denúncia da matança dos animais neste mundo carnívoro (A vida dos animais). Em Coetzee tudo é pesado, depressivo e sem remissão. E é por isso que seus fantasmas precisam da literatura para virem à tona, como se só por meio dela se tornassem suportáveis. Ao falar de si mesmo, ele parece dizer que a ficção é a única linguagem capaz de iluminar a vida pessoal mantendo-a permanentemente difusa. A desconcertante ironia de Coetzee, desenhada pela simplicidade cartesiana de sua frase, dá uma leveza extraordinária ao mundo sombrio que relata. Um mundo no qual, mesmo a contragosto, pelo poder da palavra, o leitor acaba por se sentir em casa.

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